Uma escola que guarda a memória industrial da cidade. Uma sala de aula transformada numa pintura sobre diversidade. Um antigo quartel de bombeiros visto pelos olhos de um miúdo fascinado pelos soldados da paz. Um coreto que, à meia noite, volta a ouvir a banda que o tempo parecia ter levado. As histórias premiadas na segunda edição do Festival Barreiro em Curtas mostram como os alunos conseguiram transformar lugares conhecidos do Barreiro em cinema, encontrando emoção onde muitas vezes só se vê rotina, fachada, jardim, corredor ou recordações antigas.
O Festival reuniu 14 filmes e decorreu esta terça-feira, 2 de junho, sendo restrito para a comunidade escolar. No entanto, está prevista uma apresentação aberta ao público no dia 5 de junho, às 18 horas, na Casa da Cidadania Cabós Gonçalves. A sessão reúne os trabalhos realizados pelos alunos participantes no projeto e dá ao público a oportunidade de conhecer as curtas que nasceram nas escolas, depois de um percurso de formação em cinema documental e animação.
O encontro também funciona como celebração dos filmes premiados nesta edição, marcada pela vontade de olhar para o Barreiro através de quem ainda está a aprender a filmar, mas já percebeu que uma cidade pode caber dentro de um plano, de uma entrevista ou de uma personagem desenhada.
Na categoria de cinema documental, o primeiro prémio foi atribuído a “1947”, realizado por Ana Mourata, Misiane Fernandes e Sara Bernardino, da Escola Secundária Alfredo da Silva, com orientação do professor Diogo Rosa. O filme parte da própria escola para contar uma história maior. Situada no coração do Barreiro industrial, a Alfredo da Silva nasceu para formar as gerações que acompanharam a industrialização da cidade e o crescimento da CUF. A curta faz uma viagem desde a fundação até aos dias atuais, cruzando o edifício, o ensino e a memória de uma cidade profundamente marcada pelo trabalho, pela aprendizagem e pela transformação urbana.
O interesse de “1947” está na forma como a escola deixa de ser apenas cenário. Os corredores passam a ser lugares de memória. As salas deixam de pertencer apenas aos alunos que as ocupam agora e passam a trazer também os que por ali passaram noutras décadas. Através do testemunho de um arquiteto e urbanista e de um antigo aluno e professor, o documentário aproxima gerações e mostra a Alfredo da Silva como parte da identidade barreirense. O filme fala de resistência, inovação e mudança, mas fá-lo a partir de um espaço quotidiano. Quem estuda ali talvez atravesse o edifício todos os dias. A curta lembra que aquele lugar também atravessou a história da cidade.
O segundo prémio documental foi para “Aguarelas”, de Flor de Oliveira, Larissa do Céu e Maria Beatriz, da Escola Secundária Augusto Cabrita, com orientação da professora Ana Bento. O filme entra na escola por outro caminho, menos histórico e mais sensorial. A sinopse parte de uma imagem muito clara. A escola é uma tela. Cada aluno é uma pincelada de cor viva e única. A partir dessa metáfora, a curta fala de diversidade, culturas, preconceitos, estereótipos e crescimento, usando a ideia da aguarela para mostrar como as diferenças podem tocar se sem desaparecer.
“Aguarelas” trabalha um tema atual sem cair num discurso pesado. A escola surge como lugar de mistura, mas também de preservação da identidade. As cores aproximam-se, fundem-se com a água, criam novas tonalidades, mas continuam a trazer histórias próprias. Esse olhar torna o filme especialmente forte dentro de um festival feito por jovens, porque devolve aos próprios alunos a possibilidade de se pensarem como parte de uma composição coletiva. O Barreiro que aparece aqui é menos o da indústria e mais o da convivência diária, das salas onde se cruzam origens, línguas, famílias, expectativas e formas diferentes de estar no mundo.
Para Mário Ventura, formador da vertente documental e diretor do Cine Clube do Barreiro, o essencial do projeto está na forma como os jovens se aproximam do território. “Mais do que dar a conhecer o território, é mostrá-lo de uma perspetiva que nem todos conhecem, colocando os jovens em contacto direto com as suas gentes e o seu património cultural material e imaterial.”
Elsa Mendes, coordenadora do Plano Nacional de Cinema e presidente do júri, também sublinhou o crescimento do festival e a dificuldade acrescida na escolha dos vencedores, sobretudo pela qualidade dos filmes apresentados nesta edição. “Este ano foi extraordinário participar neste júri, porque já estive cá no ano passado e, se nessa altura já foi difícil porque os trabalhos eram muito bons, este ano foi muito mais difícil. A qualidade é cada vez maior, mas isso existe porque há aqui uma visão estratégica, há um conceito, uma perspectiva do que se quer fazer”, afirmou.

Para a jurada, o Barreiro em Curtas ultrapassa a lógica de uma mostra escolar e aproxima os jovens de uma verdadeira experiência cinematográfica. “Não é um mero festival de vídeo escolar. Tivemos realmente uma sessão de cinema”, disse, recordando o impacto de ver quase 400 jovens em silêncio diante do grande ecrã.
“Dizemos que eles não vêem, mas eu não ouvi som nenhum. Estavam num silêncio total.” Elsa Mendes deixou ainda elogios à organização, ao Cine Clube do Barreiro e a Helena Pereira, defendendo que o caminho aberto pelo projeto tem margem para crescer muito nos próximos anos. “Isto vai longe.”
Cinema de animação teve estreia no festival 2026
Na categoria de cinema de animação, o primeiro prémio foi para “Número Zero do Barreiro”, de Inês Gomes, Carlos Jorge e Leonor Sardinha, da Escola Secundária de Casquilhos, com orientação do professor Carlos Jorge. A curta regressa a uma época em que o setor industrial ainda dava trabalho a muitos barreirenses e o antigo casario era ponto central da vida local. Nesse cenário, acompanha uma criança fascinada por bombeiros e futebol, duas paixões que moviam muitos jovens e que ajudavam a organizar o imaginário da cidade.
O título ganha força quando o filme liga essa memória ao destino das antigas instalações dos bombeiros. O espaço que antes pertenceu aos soldados da paz transformou-se num dos principais núcleos artísticos do Barreiro. A curta encontra aí uma passagem bonita entre tempos diferentes da cidade. O que antes era quartel, prontidão e socorro torna-se criação, encontro e arte.
“Número Zero do Barreiro” olha para essa mudança a partir da infância, talvez porque seja nesse olhar que os lugares ainda conseguem guardar espanto. O resultado é uma animação sobre transformação, mas também sobre permanência. Mudam as funções dos edifícios, ficam as marcas de quem lhes deu vida. Os cenários do filme foram feitos por uma turma de jovens estudantes, e esta diversidade de olhares sobre as ruas do Barreiro é uma camada a mais do curta.
O segundo prémio de animação foi atribuído a “O Som da Memória”, de Arielly Prado, Carolina Pires, Diana Bordalo, Marina Rocha e Micael Marques, da Escola Secundária Manuel Cargaleiro, no Seixal, com orientação da professora Matilde Pinto. A curta parte do coreto do Jardim dos Franceses, hoje descrito como um lugar muitas vezes solitário, rodeado por árvores e pelo caminho que leva os habitantes até ele. Construído há mais de 100 anos, o coreto parece guardar uma época de música e festa que ficou para trás. Mas a animação recusa deixá-lo apenas nesse silêncio.
À meia-noite, o vento traz a melodia de uma banda esquecida. Com ela regressam outras almas da sua época, chamadas a partilhar um pouco da antiga alegria e a dançar enquanto o tempo permitir. “O Som da Memória” trata o património com delicadeza, sem o prender a uma explicação. Dá-lhe corpo, som e movimento. O coreto volta a ser palco, ainda que por instantes, e o jardim recupera a vibração de uma cidade que também se fez de música, encontros e festas populares. É uma das histórias mais poéticas do programa, porque mostra que a memória pode ser triste quando fica imóvel, mas ganha outra vida quando alguém a anima.
Para Sara Naves, formadora da vertente animação, os resultados a que “assistimos nesta 2ª edição do Barreiro em Curtas, que nos orgulham, demonstraram um elevado nível de maturidade, empenho e imaginação que continuarão a ser estimulados com esta iniciativa, e que preveem alargar horizontes na continuidade da sua formação artística e cultural.”
Rui Pires, realizador e montador que integrou o júri, analisa que a segunda edição do Barreiro em Curtas mostrou uma evolução muito clara em relação ao ano anterior, quando esteve presente apenas como espectador. O jurado destacou a maturidade dos trabalhos e a forma como os alunos começaram a dominar elementos essenciais da linguagem cinematográfica.
“Consegui ver a diferença qualitativa do ano passado para os filmes deste ano e nota-se que já está noutro nível. É como se, tendo visto as curtas-metragens dos colegas e começado eles próprios a fazer filmes, isso lhes tivesse dado uma capacidade enorme para pensar e ver cinema, e para pensar como fazer cinema”, afirmou.
Para Rui Pires, o impacto do projeto torna-se ainda mais impressionante por envolver alunos do secundário, muitos deles em contacto inicial com a imagem, o som e a narrativa audiovisual. “Ao ver algumas curtas, imaginei que provavelmente eram filmes de alguém que já estava num curso superior de cinema. Isto é muito impressionante para alunos que estão agora a confrontar-se com esta matéria”, acrescentou, defendendo que o projeto deixa no Barreiro “uma semente forte”.

Três filmes documentais receberam menções honrosas
As menções honrosas alargam este retrato. “Esperança que não finda” mergulha no legado do Futebol Clube Barreirense e vê no clube uma herança afetiva para as gerações futuras. “O sol sempre aparece” acompanha Maria de Lurdes Almeida, que chegou ao Barreiro depois de se casar, aos 18 anos, e teve de transformar uma terra desconhecida em casa. “O Corpo e a Corrente” leva a câmara para o rio, seguindo a rotina de um atleta e treinador de stand up paddle, entre disciplina, competição, comunidade e ligação à água.
O programa inclui ainda histórias sobre Alburrica, os Moinhos de Vento e de Maré, o Barreiro Velho, a CUF, os caminhos de ferro, a arte urbana, o graffiti, o hip hop, o processo de criação dos próprios filmes e memórias de figuras ligadas à cidade. A variedade confirma a dimensão do projeto, organizado pelo Cine Clube do Barreiro e pelo Agrupamento de Escolas de Casquilhos, com formação em cinema documental e animação, pesquisa, escrita, imagem, som e montagem.
A professora Helena Sardinha, uma das organizadoras, olha para esta edição como parte de um caminho que ainda está a crescer. Para o próximo ano, a intenção é “consolidar e expandir o seu impacto educativo e cultural, alargando o projeto a todos os ciclos de ensino, do 1.º ciclo ao 12.º ano”. A ambição passa também por reforçar a rede criada com outros municípios e abrir novas oportunidades de colaboração entre escolas, professores e jovens criadores. “A maior alegria deste projeto é ouvir dos alunos que passaram neste palco que não são mais as mesmas pessoas e não olham para o cinema ou para a cidade da mesma forma. É por isso que vamos continuar”.
A sessão gratuita de 5 de junho coloca estes filmes diante da cidade que os inspirou. Para os alunos, será a passagem do trabalho de escola para uma sala com público. Para a comunidade, será uma oportunidade de ver o Barreiro devolvido em imagens feitas por uma geração que encontrou histórias em lugares de todos os dias. Uma escola, um coreto, um quartel antigo, uma bancada, uma margem de rio ou uma parede pintada podem parecer apenas partes da paisagem. Nas curtas do Barreiro em Curtas, tornam-se sinais de uma cidade que continua a ser filmada, lembrada e imaginada pelos mais novos.

O Barreiro em Curtas é um projeto educativo e cultural organizado pelo Cine Clube do Barreiro e pelo Agrupamento de Escolas de Casquilhos, em articulação com os agrupamentos de escolas do concelho, a Academia de Jazz Os Franceses, a Universidade Sénior do Barreiro e o Plano Nacional de Cinema. A iniciativa desafia os alunos a transformar memórias, histórias e vivências do Barreiro em curtas-metragens originais, depois de um percurso de formação em cinema documental e cinema de animação, com trabalho de pesquisa, escrita, realização, imagem, som, montagem e técnicas como animação tradicional, cut out e stop motion.
Nesta segunda edição, o projeto cresceu de sete trabalhos inscritos para 27 filmes realizados por alunos, divididos entre 13 curtas documentais e 14 filmes de animação.
A coordenação e produção estão a cargo de Helena Pereira e Mário Ventura, com formação de Mário Ventura, na área documental, e Sara Naves, na animação. O júri do Barreiro em Curtas foi composto por Elsa Mendes, coordenadora do Plano Nacional de Cinema e presidente do júri, Rui Pires, realizador e montador distinguido no DocLisboa 2024, e Augusto Cabrita, mestre em Ciências da Comunicação, investigador da obra do fotógrafo e cineasta barreirense Augusto Cabrita.
O projeto conta com financiamento do ICA, Instituto do Cinema e do Audiovisual, da Fundação Amélia de Mello, do Município do Barreiro e do Rotary Club do Barreiro.
Conheça os filmes vencedores nas categorias documental e animação:








