O Pingo Doce Outlet do Barreiro tornou-se conhecido nas redes sociais por pechinchas improváveis: brinquedos, loiça, produtos para animais, artigos para a casa e artigos que aparecem a poucos cêntimos. Quem entra, costuma ir à procura por este género de achados. As prateleiras de vinho passam mais despercebidas, embora possam guardar algumas das melhores surpresas da loja.
A New in Barreiro esteve no espaço e foi espreitar as garrafas. Entre referências mais banais, encontrou três tintos portugueses com argumentos que dificilmente se esperam num outlet: dois receberam mais de 90 pontos de uma das publicações de vinho mais conhecidas do mundo, outro pertence a uma edição limitada de apenas 3600 garrafas, todas numeradas. Todas por menos de 5€.
O mais surpreendente talvez seja o Quinta do Pinto Estate Collection 2014. A etiqueta mostra o preço anterior de 12,49€ e o novo valor de 4€, uma redução de cerca de 68 por cento. O verdadeiro achado aparece quando se procura esta colheita.
Em 2020, a revista norte-americana “Wine Enthusiast” provou este tinto e deu-lhe 92 pontos em 100. Para quem nunca percebeu muito bem o que significam estes números, a explicação é simples: os críticos provam os vinhos e atribuem uma classificação até 100. Na escala da própria revista, entre 90 e 93 ficam os vinhos considerados “excelentes” e altamente recomendados. É uma avaliação, e não medalha, mas ajuda a perceber por que razão esta garrafa foge ao perfil de um vinho barato escolhido apenas pelo preço.
O Quinta do Pinto, produzido na Aldeia Galega da Merceana, no concelho de Alenquer, junta cinco variedades de uva: Syrah, Aragonez, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Tinta Miúda. Parte do vinho passou nove meses em barricas de carvalho francês. Para quem prefere ficar longe do vocabulário de enólogo, o produtor resume o resultado com referências bem mais familiares: fruta vermelha madura, ameixa, chocolate negro e um ligeiro sabor tostado. A “Wine Enthusiast” considerou a colheita já madura e pronta a beber quando a avaliou.

Uns passos depois surge a etiqueta mais agressiva desta pequena caça ao vinho. O Vinhas Velhas do Rocim Edição Limitada 2024 custava 19,99€ e está agora a 4,99€, com 75 por cento de desconto. A primeira pista de que existe algo diferente nesta garrafa está mesmo no rótulo. Foram feitas apenas 3600 e cada exemplar recebeu um número. Parte desta produção mais exclusiva está nas prateleiras do outlet do Barreiro.
Também vale a pena perceber o que significa a designação “vinhas velhas”. A Herdade do Rocim, situada entre Vidigueira e Cuba, no Baixo Alentejo, conta que, quando começou a recuperar a propriedade, decidiu conservar vinhas antigas que já existiam no terreno. A herdade tem cerca de 120 hectares, 70 deles ocupados por vinha. O produtor apresenta essa preservação como parte importante da identidade dos seus vinhos.
Na garrafa encontrada no Barreiro aparecem três castas: Alicante Bouschet, Moreto e Trincadeira. Se a ideia for oferecer vinho, uma garrafa que custava praticamente 20€, limitada a 3600 exemplares e identificada individualmente, fica agora abaixo dos 5€.

O terceiro achado custa ainda menos. O Golpe Douro DOC 2016, da Família Carvalho Martins, passou dos 9,99€ para 4€, perto de 60 por cento de desconto. E volta a aparecer uma daquelas classificações que fazem olhar para a garrafa com outros olhos.
A “Wine Enthusiast” atribuiu 91 pontos em 100 precisamente à colheita de 2016 que descobrimos no outlet. Continua, portanto, dentro da faixa que a revista chama de “excelente”. Na prova publicada em 2020, o crítico Roger Voss destacou a estrutura e o caráter mineral do vinho e considerou que ainda estava a evoluir.
O Golpe vem do Douro, mais concretamente da Quinta Vale do Olmo, na zona da Mêda. O nome também tem uma história curiosa. A Família Carvalho Martins passou quatro gerações ligada à produção de uvas e criou o Golpe quando avançou para a produção de vinho com marca própria.
Este tinto junta Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz. A referência é produzida a partir de vinhas plantadas nos anos 90 e passa pelo menos 12 meses em barricas de carvalho francês, segundo a própria família.

Encontrar estas três garrafas também muda um pouco a imagem do próprio outlet. O espaço do Barreiro abriu em 2014 e voltou recentemente a circular com força nas redes sociais devido aos preços. Uma reportagem da NiT publicada em agosto encontrou artigos desde 10 cêntimos e descontos superiores a 50 por cento, podendo ultrapassar os 75 por cento durante algumas campanhas.
Os vinhos já estavam por lá muito antes da atual vaga de vídeos virais. Em 2019, a NiT chegou a encontrar garrafas a 50 cêntimos, enquanto a maioria dos clientes se concentrava nas restantes oportunidades espalhadas pelo espaço.
Desta vez, porém, a história escondida nas prateleiras está menos no vinho e mais no que se consegue levar por 4€ ou 4,99€. Um tinto de Alenquer com 92 pontos, outro do Douro com 91 e uma edição alentejana limitada a 3600 garrafas fazem do outlet uma paragem inesperada para quem gosta de vinho bom e prefere pagar muito menos por ele.







