As sardinhas assadas chegam à mesa com gordura, sal, pele tostada e um sabor suficientemente intenso para tornar a escolha do vinho menos óbvia do que parece. Um branco muito leve pode desaparecer perante o peixe, um tinto pesado a arrisca tornar o almoço demasiado denso.
Produzido no Barreiro e vendido por 14,50€, o Espatário 2023 ocupa esse intervalo: tem a frescura procurada nos meses quentes, corpo suficiente para acompanhar a refeição e uma cor rubi clara, que o coloca algures entre os dois universos. E mais, o vinho é super exclusivo, já que só foram produzidas 769 garrafas.
A sugestão vem da Banda d’Além, o projeto vitivinícola instalado na Quinta da Estalagem, e recupera uma bebida que atravessava as refeições medievais com uma liberdade que as categorias atuais já não permitem. Naquela época, o clarete acompanhava praticamente tudo. Hoje, este vinho pode chegar ligeiramente fresco à mesa com sardinhas, peixe grelhado, choco frito ou uma cataplana de marisco.
O Espatário é composto por cerca de 80 por cento de Fernão Pires, uma casta branca antiga da região, e 20 por cento de Castelão. A mistura dá origem a um vinho leve, de corpo mediano e com uma acidez suficientemente viva para limpar o palato entre garfadas. O aroma apresenta-se discreto, com algumas notas de fruta.
Teresa Canas Martins, proprietária da Banda d’Além, recomenda ajustar a temperatura ao calor do dia. Embora a indicação geral aponte para os 16 graus, o vinho pode ser servido mais fresco durante o verão, sobretudo quando acompanha pratos de peixe.
“É um vinho que pode ser servido entre os 12 e os 14 graus, quando a temperatura ambiente é elevada. O Espatário é um vinho leve e fresco, que acompanha perfeitamente as refeições do dia a dia, como peixe grelhado, por exemplo sardinhas assadas que chegam às nossas mesas no verão. Ou, como diria o professor Virgílio Loureiro, na Idade Média o clarete acompanhava tudo, mas propõe choco frito e cataplana de frutos do mar”, explica.
Esta versatilidade transforma o Espatário numa escolha útil para refeições em que aparecem vários pratos na mesma mesa. Pode começar com petiscos, seguir para um peixe grelhado e acompanhar marisco sem exigir a troca de garrafa a meio do almoço. A frescura aproxima-o dos vinhos procurados nos dias quentes, mas a presença da Castelão oferece-lhe mais estrutura do que a encontrada num rosado muito delicado.
A própria forma de produção ajuda a perceber por que razão o vinho foge ao perfil habitual. As uvas Fernão Pires são vinificadas de bica-aberta, com o mosto obtido antes de uma prensagem mais intensa. Quando o vinho branco está concluído, recebe a chamada “tinta”, preparada através da curtimenta das uvas Castelão durante aproximadamente uma semana.
Em vez de nascer apenas do contacto breve do mosto com as películas tintas, como acontece em muitos rosados, o Espatário começa por ser branco e ganha depois cor, corpo e sabor através dessa adição.
A fermentação arranca espontaneamente com as leveduras existentes nas próprias uvas, enquanto a utilização de sulfitos é reduzida a uma dose mínima. O resultado mantém a fruta em segundo plano e deixa a acidez assumir boa parte do protagonismo.
Há também um pequeno conflito entre o que está dentro da garrafa e o que pode ser escrito no rótulo. Historicamente, o Espatário deveria chamar-se clarete, já que nasce da combinação de vinho branco e tinto. A legislação portuguesa obriga, porém, a classificá-lo como rosete. O termo corresponde ao rosado medieval, embora não descreva com a mesma precisão o método utilizado pela Banda d’Além.
O nome escolhido aponta para os espatários, cavaleiros da Ordem de Santiago que dominaram esta região durante a Idade Média. A referência histórica distingue a garrafa, mas funciona sobretudo como explicação para a técnica recuperada. O objetivo da produção não passa por criar uma réplica decorativa para guardar numa prateleira; o vinho foi pensado para ser aberto, refrescado e colocado ao lado de comida portuguesa bastante reconhecível.
A Banda d’Além começou a tomar forma depois de Teresa e Adelino Martins se mudarem para a Quinta da Estalagem, propriedade ligada à família de Adelino, cujo pai nasceu em Palhais. O casal, formado em Psicologia e Engenharia, encontrou um território onde a relação com o vinho sobrevivia no brasão do Barreiro, nas memórias sobre o Bastardinho do Lavradio e em referências antigas, embora grande parte das vinhas tivesse desaparecido com o crescimento industrial.
A primeira vinha foi plantada em 2017 e o projeto passou a acompanhar a pesquisa sobre os vinhos que tinham sido produzidos e consumidos na região em diferentes períodos. O trabalho levou a Banda d’Além a desenvolver referências inspiradas na época romana, na Idade Média, no século XVII e até nos hábitos dos antigos operários da CUF.
O Espatário 2023 pode ser comprado por 14,50€. Antes de o levar para a mesa, basta colocá-lo algum tempo no frigorífico e retirá-lo quando estiver entre os 12 e os 14 graus. A primeira garfada pode ser de choco frito, a seguinte de sardinha assada e a última de pão mergulhado no molho da cataplana — exatamente o tipo de sequência para a qual um clarete medieval parece ter regressado.
Pode ser comprado diretamente na Adega Banda d’Além e em algumas garrafeiras do Barreiro e de Lisboa, como a Vinus Rarus e o Estado d’Alma.
Carregue na galeria e veja algumas imagens da Quinta da Estalagem e do projeto Banda D’Além.








