Silvino Jorge já tinha idade para deixar as manhãs correrem sem pressa quando decidiu fazer exatamente o oposto do que era esperado. Aos 78 anos, recusou estar em casa, longe de rendas, fornecedores, contas, caixas, sacos de especiarias e clientes que entram apenas para perguntar o preço de um chá. Preferiu abrir uma loja no Mercado 1.º de Maio, no Barreiro, onde vende temperos, frutos secos, grãos, chás a granel, mel e produtos que quase desapareceram do comércio tradicional no centro da cidade. Nove anos depois, continua ali, numa espécie de resistência pequena e diária, rodeado de aromas a canela, colorau, caril, frutos secos e conversas feitas ao balcão.
A loja Grão a Grão nasceu em 2017, logo depois da reforma. Nascido e criado em Torres Novas, trabalhou como eletricista na Fábrica Militar de Braço de Prata e também no arquivo da Câmara Municipal da Moita. Quando chegou a altura de deixar de trabalhar, percebeu que isso talvez fosse a parte mais difícil. “Estava reformado e não queria parar. Então fui procurar algo que pudesse deixar-me ocupado”, conta. “É necessário a gente saber sempre alguma coisa para nos sentirmos ativos e úteis à sociedade.”
O negócio foi discutido e pensado por Silvino e pela mulher. Antes de avançarem, procuraram perceber o que faltava no Barreiro e concluíram que aquele tipo de loja tinha desaparecido do centro da cidade. “Não havia mais nada deste género no centro do Barreiro e optámos por vir para aqui, com esta lojinha. Já não havia mais ninguém a vender isso no mercado.”
O diminutivo “lojinha” engana. O espaço parece pequeno, mas guarda um tipo de comércio que sobrevive cada vez mais pela persistência de quem atende e pela memória de quem procura. Quem entra ali vai atrás de especiarias, frutos secos, chás avulso, mel e produtos que, segundo o próprio, alguns clientes dizem encontrar com aquela qualidade apenas naquele balcão.
“Muitos destes produtos não se produzem em Portugal. Parte das especiarias compro a fornecedores de mercados indianos. Os que vendem nos supermercados não têm a mesma qualidade”, explica.
O Mercado 1.º de Maio também mudou desde que ele ali chegou. O edifício, que durante décadas funcionou como ponto de compras diárias, tem vindo a ganhar uma nova vida ligada à restauração, à música, ao cinema e aos eventos.
No meio dessa transformação, a loja de Silvino Jorge já pertence a outra camada do mercado, a dos produtos vendidos ao peso, das receitas que dependem da especiaria certa, dos chás escolhidos sem embalagens vistosas e dos clientes que ainda perguntam antes de levar. Ao lado da nova energia gastronómica, a banca mantém um lado mais discreto e antigo da vida comercial do Barreiro.
O septuagenário sente que o mercado já teve mais movimento para as compras tradicionais. Diz que há clientela fixa, embora “uns vão desaparecendo, outros vão aparecendo de novo”. A frase carrega a passagem do tempo, mas também uma ideia de continuidade. O que mais o preocupa é a quebra da procura, sobretudo depois da pandemia. “A Covid estragou tudo”, diz. Curiosamente, durante o período em que muita coisa fechou, a loja ainda conseguiu vender melhor, talvez “por se manter aberta quando havia menos alternativas”. Depois disso, a tendência mudou.
O assunto surge na conversa, mas Silvino parece menos interessado em transformar a loja numa queixa do que em explicar porque continua a abrir a porta todos os dias. Admite, contudo, que o público do centro do Barreiro também mudou. “Já aparecem alguns novos clientes de outros países. Já vieram aqui ingleses, alemães, franceses, italianos. Alguns estão mesmo a morar cá e passam aqui em busca de especiarias e chás”, explica.
“Abro das 9 horas às 14 horas de terça a sábado”, conta. Fecha ao domingo e à segunda-feira. O horário, mesmo reduzido, organiza-lhe a semana. Dá-lhe um lugar para ir, uma função para cumprir, uma rotina fora de casa.
O dinheiro pesa, claro, e admite que quase tudo serve para pagar renda, água, luz, contabilista e reposição de produtos. “A minha intenção é estar aqui… ser útil. O dinheiro é importante naturalmente, mas é o menos importante para mim.” O balcão, neste caso, vale também pelo que impede: o isolamento, a falta de conversa e a sensação de já ter ficado de fora.
A história de Silvino toca num tema muito maior do que aquela loja. Portugal está a envelhecer rapidamente. Em 2024, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), as pessoas com 65 ou mais anos representavam 24,3 por cento da população residente e o índice de envelhecimento chegou aos 192,4 idosos por cada 100 jovens. As projeções apontam para que a população idosa passe de 2,6 milhões para 3,1 milhões de pessoas até 2100, no cenário central.
A loja do senhor Silvino traduz essa resistência silenciosa, um homem reformado que podia desaparecer da rotina da cidade decidiu criar uma nova ocupação para continuar a sentir-se útil. A família também entra nessa escolha. Tem dois filhos, um de 23 anos, que estuda engenharia mecânica, e outro de 15, ainda sem caminho definido. “É o meu cantinho”, confessa. Até quando? “Até poder.”
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