A Vinus Rarus abriu a 24 de junho de 2022, quando o Mercado 1.º de Maio ainda estava longe da azáfama que hoje leva várias pessoas ao centro do Barreiro para almoçar, petiscar, beber um copo ou ficar um pouco mais entre bancas e restaurantes.
Luís Ribeiro tinha conseguido a concessão do espaço meses antes, depois de uma hasta pública, recebeu as chaves em maio e inaugurou a garrafeira antes da chegada dos restaurantes que viriam a dar nova vida ao mercado. “Somos os primeiros desta nova vaga”, recorda. Durante mais de um ano, sobretudo à tarde, a loja funcionou quase sozinha. “O mercado não tinha esta vida, à tarde estava sozinho”, recorda.
A história da garrafeira, porém, começou antes de haver loja, antes de haver mercado renovado e até antes de Luís saber que, um dia, iria vender vinhos portugueses no Barreiro. Começou como um fio solto e invisível que liga histórias de três gerações. De um lado, um avô que produziu vinho na zona da Serra d’El Rei, entre a Lourinhã e o Bombarral, passou por Alcântara e acabou por abrir uma taberna na antiga “Rua da Cadeia”, no Barreiro.
Do outro, um neto que hoje trabalha mais de 300 referências de cerca de 50 pequenos produtores portugueses, de várias regiões do País, incluindo ilhas. No meio está Luiz Ribeiro, “com Z, porque ainda usaram a forma mais antiga de escrever o nome”. O pai, nascido entre casa e comércio, homem de estaleiros, frutarias, mercearias, café com jogos da Santa Casa e das muitas reinvenções profissionais que ajudaram o filho, Luís com S, a perceber o balcão muito antes de escolher o vinho.
Aos 51 anos, Luís ainda responde “sou professor” quando lhe perguntam o que faz. Dá explicações de matemática desde 2012, no Barreiro, e a Vinus Rarus cresceu ao lado dessa vida. A loja “sempre se pagou desde o dia um”, diz, mas ensinar os mais novos continuou a ser a profissão principal. O vinho entrou por outro lado, mais antigo e menos linear, feito de gosto pessoal, curiosidade, conversas com produtores e uma infância passada a ver os pais trabalhar ao balcão.
Memórias de infância
Aos 75 anos, o pai fala do vinho como uma memória que o acompanha desde a infância. O avô tinha vinhas na zona da Serra d’El Rei, vendeu o que tinha, passou por Alcântara e abriu uma taberna numa zona movimentada pelo cais. Mais tarde, quando o Barreiro crescia com a indústria e atraía gente de muitos lados, mudou novamente. “Todo o mundo vinha para aqui em busca de emprego”, recorda Luiz. O avô vendeu o que tinha em Alcântara e instalou-se no Barreiro, nas traseiras do edifício da autarquia, junto à antiga Rua da Cadeia.
Luiz nasceu ali. A casa da família e a taberna ocupavam o mesmo universo. “Brincava na taberna”, diz. A parte comercial ficava de um lado, a vida doméstica do outro, e as duas misturavam-se como acontecia em tantos negócios familiares. A bebida era quase toda vinho. “Tinto ou branco? A resposta era uma só: cheio”, lembra Luiz, com um sorriso. Vendia-se a granel, em barris, cascos e cartolas. Os clientes podiam beber ao balcão ou levar para casa. Para comer, apareciam petiscos e peixe frito, o suficiente para acompanhar o copo e a conversa.
A zona dava freguesia. Por ali passavam operários, trabalhadores ligados à CP, gente das fábricas de cortiça e moradores de uma cidade que tinha o trabalho como centro da rotina. O vinho, nessa época, tinha outro papel. Chegava em quantidade, saía em garrafões, circulava pela confiança entre quem servia e quem comprava. A taberna do avô pertence a esse tempo. A Vinus Rarus pertence a outro. O fio entre uma e outra está menos no negócio e mais na aprendizagem do balcão, no comércio como modo de vida e na forma como o vinho atravessou a família, sem pedir licença.
Uma das memórias mais vivas de Luiz passa pelo armazém de Fortunato Lopes de Carvalho, fornecedor importante de vinho no Barreiro. O avô ia lá tratar contas e levava o neto. Nessas idas, ficou próximo do fornecedor, que virou seu padrinho. “Quando miúdo, sempre que ia lá, recebia uma moeda de prata, era quase uma lente de óculos”. O armazém abastecia várias tabernas e fazia parte de uma rede local que ajudava a manter o vinho a circular pela cidade. Para Luiz, aquilo era também um passeio, como rotina de infância e contacto com adultos, com uma forma de comércio que se fazia olhando as pessoas de frente.
Depois veio a Escola Alfredo da Silva, a formação em serralharia e os estaleiros. Luiz entrou pela área da caldeiraria e da reparação naval, passou pela construção naval e acabou na parte administrativa, nos orçamentos e na contabilidade industrial. O trabalho consistia em perceber quantas horas eram necessárias para reparar um navio, quanto custava cada intervenção, que departamentos entravam em cada operação.
A memória que guarda desse tempo tem cartões de ponto, grandes computadores, bandas magnéticas e uma escola técnica que, naquela altura, abria portas. Foi lá que reencontrou Maria Ribeiro, que viria a ser a sua esposa, mãe dos dois filho e a companheira de toda a vida.
Nos anos 80, a crise nos estaleiros voltou a mexer com a família. Luiz e a mulher saíram da empresa no mesmo período e foram para o comércio alimentar. Começaram por uma frutaria, passaram por mercearias, fornecimentos a cantinas escolares e chegaram a ter várias lojas na Margem Sul, com cerca de 20 funcionários. “Depois reinventei-me”, resume Luiz, usando uma palavra que parece caber em quase todos os capítulos da vida dele. Mais tarde, ainda exploraram uma agência ligada aos jogos da Santa Casa e um café. O filho viu tudo de perto.
Entre a matemática e os vinhos
Luís começou a ajudar cedo. “Na primeira mercearia dos meus pais, tinha dez anos.” Aos sábados e nas férias, ficava na caixa. Aprendeu a receber, a dar troco, a lidar com clientes, a perceber ritmos de loja. Antes da banca, antes das explicações de matemática, antes dos produtores de vinho, aquele foi o primeiro treino. A proximidade com números também vem daí.
Licenciou-se em Matemática, ajudou a estruturar duas bancas em Portugal e, com o tempo, ficou “caro” para o negócio. A passagem pela banca terminou em 2012. Pouco depois, começou a dar explicações, primeiro por circunstância, depois como trabalho fixo. O vinho já vinha ao lado. “Nunca bebi nada com gás”, conta. Enquanto os amigos escolhiam cerveja ou refrigerantes, ele aproximou-se mais cedo do vinho, do moscatel e do vinho do Porto. A partir daí, começou a provar, perguntar, visitar produtores e ouvir. “A formação que tenho é prática e autodidata, de falar com as pessoas.”
A marca Vinus Rarus surgiu antes da loja física. Luís queria uma associação a “vinhos raros” e procurou uma sonoridade próxima no latim. O nome ainda obriga a explicações. Muitos ouvem de uma maneira e escrevem de outra, mas a intenção ficou. A primeira experiência aconteceu numa pop up de Natal, no Fórum Montijo, em dezembro de 2019. Nessa altura, a seleção era apenas de vinhos da Península de Setúbal e já seguia o critério que ainda hoje definem a casa. Marcas fáceis de encontrar no supermercado ficavam de fora. O interesse estava nos produtores pequenos, nos rótulos menos vistos, nas garrafas que pedem conversa.
A negociação com os produtores começou com humildade comercial. “A minha conversa é sempre a mesma”, diz Luís. “Sei lá se vou vender zero ou 100 garrafas.” Muitos aceitaram colocar vinhos à consignação. O que vendesse era pago, o resto voltava. A pandemia chegou logo depois e empurrou a Vinus Rarus para as redes sociais. Sem site, Luís vendeu pelo Facebook, Instagram e WhatsApp. Em 2020, alargou a procura a outras regiões e a marca deixou de estar concentrada apenas em Setúbal.
Quando a loja abriu no Mercado 1.º de Maio, o projeto ganhou morada, mas ainda ficou algum tempo à espera da cidade. O espaço tinha pouco movimento, sobretudo à tarde. Luís mantinha as explicações, abria a garrafeira, atendia quem aparecia e ia construindo a clientela com paciência. A mudança veio quando novos espaços chegaram e o mercado começou a atrair outro fluxo de pessoas. Quem entrava para jantar, petiscar ou comprar comida descobria a garrafeira.
Hoje, a Vinus Rarus vende de três formas. Há garrafas para levar, vinho a copo e consumo no espaço. A casa também evita a lógica fixa do vinho da casa. “Tem sempre mais do que uma alternativa disponível para o copo.” O que está aberto num dia pode mudar no seguinte. Para quem volta, isso transforma a visita numa prova diferente. Para quem chega sem saber o que escolher, abre caminho à conversa.
As mais de 300 referências vêm de cerca de 50 produtores portugueses, de várias regiões, incluindo ilhas. Luís trabalha brancos, tintos, rosés, espumantes e fortificados, sempre com foco em produção pequena e que dificilmente está disponível em supermercados. A garrafeira também tem caixas de presentes com vinho, azeite, mel, doces e outros produtos, uma lógica herdada das pop ups de Natal. O cliente chega com um valor e a caixa é feita à medida.
No balcão, há pratos de enchidos, queijos e tiras de bacalhau panadas. A partir do momento em que os restaurantes abriram no mercado, Luís deu abertura para que os clientes comprassem comida noutros espaços e a levassem para acompanhar o vinho. A Vinus Rarus acabou por se integrar nessa nova vida do 1.º de Maio, entre clientes do Barreiro, estrangeiros que vivem na cidade, curiosos e quem entra por acaso.
Luiz aparece quando é preciso. O filho brinca e chama-lhe “chefe de manutenção”. São sócios, mas a loja é sobretudo o caminho de Luís. O pai está ali como presença, memória e ligação a uma história que começou muito antes da garrafeira. O avô vendia vinho a granel numa cidade operária. Luiz cresceu nesse ambiente, passou pela indústria e voltou ao comércio quando a vida exigiu outra saída. Luís pegou noutra ponta do fio e abriu, no mercado renovado do Barreiro, uma garrafeira dedicada a vinhos portugueses que dificilmente se encontram por acaso.
Quem entra hoje na Vinus Rarus pode sair apenas com uma garrafa. Talvez um branco das ilhas, um tinto do Douro, um rosé de Palmela, um moscatel ou uma caixa para oferecer. A história inteira fica atrás do balcão, nos gestos de quem serve, na escolha das garrafas, na memória de uma taberna que pertence a outro tempo e numa família que foi mudando de atividade, sem perder o hábito de atender pessoas.
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