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No Barreiro, há uma loja que o filho mantém aberta por amor ao pai

“O Pinto” existe há décadas na cidade. Continua aberto porque Carlos quis homenagear o pai, que passou a vida atrás daquele balcão.

A loja fica na Rua Dr. Câmara Pestana, 7, no Barreiro, mas durante décadas quase ninguém precisou do endereço completo. Bastava dizer que se ia “ao Pinto”. O nome da família funcionava melhor do que qualquer letreiro.

Ainda hoje, a porta continua aberta, o balcão continua no mesmo sítio e Carlos Pinto, de 76 anos, continua a descer para atender quem aparece à procura de atacadores, colas, sprays, carteiras, cintos e outros artigos ligados ao calçado.

A pergunta que sustenta esta história cabe em poucas palavras. O que leva um professor reformado, antigo diretor de uma escola, a manter uma loja antiga de artigos para sapatos num tempo em que quase tudo se compra depressa e se substitui ainda mais depressa?

A resposta começa no pai. António Pinto trabalhou naquele espaço primeiro como empregado, por volta de 1952 ou 1953. Em 1957 voltou já ligado ao comércio como patrão. Ficou até ao fim da vida. Morreu em 2014, aos 86 anos, depois de décadas atrás do balcão. Para ele, aquela loja era o centro de uma existência inteira.

“Para o meu pai, isto era tudo”, diz Carlos. A frase explica quase tudo o que veio depois. Carlos fechou a loja durante alguns meses após a morte do pai. O espaço ficou parado, mas a ausência pesou. Reabriu por homenagem, sem transformar o gesto num plano comercial grandioso.

O negócio já pertence a outro tempo, com outro público e outra relação com os objetos. Ainda assim, a porta aberta mantém viva uma memória familiar e, ao mesmo tempo, uma peça rara do comércio tradicional do Barreiro. “Não pensei muito antes de decidir reabrir a loja. Mas senti que o tinha de fazer. Em honra a história do meu pai”, explica.

A loja terá começado por volta de 1948. Carlos conta que um funcionário da Câmara Municipal do Barreiro, durante um levantamento sobre casas comerciais antigas, lhe terá dito que aquele espaço seria a loja mais antiga ainda em funcionamento no concelho, a par de uma casa de sementes, em Coina.

A informação precisa de confirmação documental, mas o próprio interior parece funcionar como arquivo material dessa possibilidade. “Faço questão de manter tudo como o meu pai deixou”, explica. Mas logo lembra que, sobre o balcão, há um computador que serve de registradora. “Fiz breves atualizações. Além do computador, uma pintura nas paredes, mas não mexi em quase nada”. 

Logo à entrada, o ambiente transforma-se. Nada lembra os espaços anónimos e repetidos das cadeias comerciais. Uma antiga balança permanece no interior, vestígio de uma prática comercial mais lenta e física: “e funciona à perfeição”, lembra.

O mostruário tem muitas gavetas, cada uma identificada com a fotografia do objeto guardado lá dentro. O sistema é simples, visual e eficaz. Em vez de ecrãs, há madeira, imagens, compartimentos e memória de uso.

As gavetas guardam pequenos materiais que ainda resistem no quotidiano de algumas pessoas: atacadores, acessórios, produtos para tratar sapatos, colas, sprays, capas e peças que perderam protagonismo no comércio atual.

Durante muito tempo, uma casa ligada ao calçado fazia parte da vida normal de uma rua. Hoje, esse tipo de procura ficou mais raro. Carlos reconhece a mudança. Fala dos chinelos de borracha, dos hábitos de consumo e da diminuição de clientes habituais.

Mesmo assim, alguém entra sempre. Uma pessoa precisa de um atacador. Outra procura uma cola. Outra passa apenas para cumprimentar. “Não vivo disto. É mesmo para manter a memória do meu pai”, explica ao falar do pouco movimento.

A loja também serve de ponto de encontro. Carlos trabalha sozinho, mas raramente parece isolado. Ao fim da manhã, os amigos aparecem. Encostam-se, conversam, acompanham o passar das horas. O espaço funciona menos como comércio de grande movimento e mais como uma pequena permanência urbana, onde se vende alguma coisa, se fala de muita coisa e se preserva a presença de quem já partiu.

A companhia também vem de dentro. Carlos tem um pássaro exótico e um cão que, por vezes, fica por ali, no vaivém discreto da loja. São presenças pequenas, mas importantes para perceber o ambiente.

A casa mantém a função comercial, embora carregue uma dimensão doméstica. O prédio é da família e Carlos vive no mesmo edifício. Desce, abre, arruma, atende, conversa, fecha quando precisa. Depois de uma carreira submetida a horários escolares, reuniões, direções e responsabilidades, permite-se uma rotina mais flexível.

“Abro às dez e meia. Tenho liberdade para isso. Quando quero, fecho o dia todo”, diz.

Antes de assumir a loja, Carlos teve outra vida profissional. Nasceu em Lisboa, chegou ao Barreiro aos sete anos e fez o percurso de quem passou a pertencer à cidade por convivência prolongada. Foi professor de Educação Física. Deu aulas no Barreiro, passou por várias escolas, foi presidente da comissão executiva, diretor de escola e depois de agrupamento.

A loja, durante esses anos, era o território do pai. Carlos acompanhava, mas seguia outro caminho. Só depois da morte de António Pinto é que aquele balcão passou a ter outro peso. O filho que tinha vivido entre escolas, alunos e ginásios regressou ao espaço onde o pai tinha envelhecido a trabalhar.

A ausência de placa tornou-se parte da identidade da casa. O comércio antigo vivia dessa relação direta entre pessoas. O apelido valia mais do que uma marca. Quem entrava sabia quem estava por trás do balcão. Quem vendia também conhecia quem comprava. Essa proximidade explica parte da decisão de Carlos. A loja guarda objetos, mas guarda sobretudo reconhecimento. Cada gaveta, prateleira e cada conversa repetida ajudam a manter o pai presente, sem precisar de um retrato solene.

O Pinto Barreiro

Carlos tem três filhos. Eles seguiram outros caminhos e estão fora da atividade da loja, mas acompanharam a história dos avós e gostam de ver o espaço aberto. Para a família, aquele lugar nunca foi apenas um rés do chão com artigos para sapatos. Foi o trabalho de António Pinto, a rotina de muitos anos, a referência de uma rua, a casa conhecida por um apelido.

“Não tenho planos concretos de até quando ficarei por aqui”, explica. O ex-professor diz que já recebeu algumas propostas para arrendar o imóvel. Não descarta esta possibilidade, mas confessa que tem uma exigência: “Ninguém pode descaracterizar o prédio, os móveis. Se um dia isto aqui for outra coisa, precisar ter esta mesma aparência”, explica.

Carlos evita prometer permanência longa. Aos 76 anos, prefere viver sem metas rígidas para a loja. Continua enquanto fizer sentido e tiver gosto. A homenagem ao pai acontece sem cerimónia anunciada. Está na chave que abre a porta, nas gavetas com fotografias, na balança antiga, nos amigos que entram e nos clientes que ainda procuram o que raras lojas vendem: memória.

Carregue na galeria para ver algumas imagens da loja.

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