A primeira peça criada por Ana Carrilho começou de forma atribulada. Durante uma caminhada junto ao mar, um fragmento de concha preta ficou preso entre os dedos e cravado na pele, como se tivesse encontrado uma forma pouco delicada de interromper o passeio. Ana Carrilho retirou-o, olhou para aquele pequeno caco escuro e decidiu guardá-lo. “Ficou ali, como se quisesse vir comigo, como se dissesse que eu tinha de o levar”, recorda.
Já em casa, o pedaço que poderia ter acabado no lixo foi limpo, trabalhado e transformado num brinco. Tornou-se também a primeira prova de que uma concha partida conservava beleza suficiente para ganhar uma segunda vida. Algum tempo depois, durante outro passeio junto ao mar, o brinco soltou-se sem que Ana desse por isso. “Acabou por ser um dos brincos que, entretanto, o mar levou. Caiu-me num dos passeios e eu nem dei conta. Voltou à vida dele.”
A viagem circular daquele pequeno fragmento, do mar para o pé, do pé para a bancada de trabalho, da bancada para a orelha e, por fim, novamente para o mar, resume quase toda a história dos Cacosmeuscalhaus. O projeto transforma conchas, búzios, pedras e caracóis recolhidos nas praias em brincos, colares, pulseiras, ganchos para o cabelo, pregadeiras e peças decorativas. A primeira regressou ao lugar de onde tinha saído. As seguintes começaram a acumular-se em caixas, a aparecer ao pescoço das amigas e a ocupar as bancas de feiras no Barreiro.
Dentro da Startup Barreiro, onde é mais comum encontrar aplicações, plataformas digitais e empresas tecnológicas, Ana, de 64 anos, instalou um projeto construído com conchas, pedras, alicates, fios e trabalho manual. A presença ali cumpre três dos critérios que levaram a incubadora a acolher a marca: criatividade, inovação e sustentabilidade. “As pessoas pensam logo que uma startup tem de estar ligada ao digital. Alguém achou que o meu projeto era interessante porque correspondia aos princípios da startup e cá estou”, explica.
Essa aparente contradição constitui uma das partes mais interessantes dos Cacosmeuscalhaus. A inovação surge menos numa técnica inédita e mais na forma de olhar para aquilo que perdeu valor aos olhos de quase toda a gente. Uma concha rachada, furada ou reduzida a um pequeno fragmento deixa de ser um resto da praia para ocupar o centro de uma peça. Ana evita esconder as marcas deixadas pela água e pela areia. Prefere trabalhar com elas, preservando a irregularidade que impede dois brincos, dois ganchos ou dois colares de serem exatamente iguais.

“A minha vontade é demonstrar que, mesmo quando se vê uma concha toda partida, toda torta, com buracos, ela pode ser extremamente bela por si só, sem mais artifícios”, conta. A frase funciona quase como um manifesto da marca. Ana não procura apenas conchas inteiras, lisas e simétricas. Muitas vezes, concentra-se precisamente nos vestígios de desgaste, nos recortes inesperados e nas superfícies que o mar demorou anos a moldar.
O material chega sobretudo das caminhadas que faz junto ao mar, muitas delas nas praias do Barreiro, onde encontra conchas, pequenos búzios e caracóis que depois combina com pedras e componentes de bijutaria. A recolha, porém, tornou-se progressivamente mais seletiva. “Vou apanhando cada vez menos, porque, se eu não sinto bem o que vou fazer com aquela concha, então não a apanho”, afirma.
Quando percebe que levou consigo alguma peça sem encontrar uma utilização, guarda-a até voltar à praia. Depois devolve-a. Esse gesto reduz o impulso de acumular matéria-prima e introduz na produção uma regra simples: cada elemento retirado do seu lugar deve justificar a viagem. “Já me aconteceu apanhar conchas e pensar: eu não vou usar estas. Então, quando volto à praia, levo-as comigo e devolvo-as ao mar.”
O nome Cacos Meus Calhaus também nasceu durante essas caminhadas. O marido de Ana habituou-se a chamar “calhaus” às pedras e conchas que ela levava para o carro depois dos passeios. A palavra acabou por se juntar aos “cacos”, referência direta aos fragmentos usados nas peças e, ao mesmo tempo, uma brincadeira com a expressão “cá com os meus botões”.
Enquanto caminhava para aliviar a pressão dos dias, Ana organizava pensamentos, revia problemas e conversava silenciosamente consigo própria. Em vez de falar com os “seus botões”, falava com os “seus calhaus”. “Aquelas caminhadas eram a minha terapia. Era como se, em vez de falar com os meus botões, eu falasse com os meus calhaus”, explica. O nome surgiu naturalmente dessa ligação entre o pensamento, a praia e a matéria recolhida.
Antes de o projeto ganhar um lugar numa incubadora, já existia uma longa ligação aos trabalhos manuais. Ana aprendeu tricô ainda em criança, guardou um livro de pontos e chegou a fazer camisolas completas. Experimentou croché, ponto de cruz, pedras, contas de vidro e bijuteria simples. As mãos permaneceram ocupadas em diferentes fases da vida, embora a criação tivesse sempre de caber nos intervalos deixados pelo trabalho, pela família e pelos cuidados prestados aos pais e aos sogros, que precisavam de atenção especial devido a problemas de saúde.
As caminhadas junto ao mar surgiram nesse período como um raro momento de desaceleração. “A questão das conchas surgiu um bocadinho como terapia”, resume. Durante as férias, regressava frequentemente a casa com sacos cheios de achados, até ouvir do marido a pergunta inevitável: já que trazia tantos “calhaus”, o que pretendia fazer com eles?
A resposta começou pelos brincos, o acessório que Ana usa diariamente. “Ando sempre com brincos. Sempre, sempre, sempre”, diz. Depois vieram pregadeiras, colares, pulseiras e ganchos para prender o cabelo no verão. As amigas começaram a reparar nas peças e a pedir outras semelhantes. A primeira venda aconteceu através de uma colega que comprou um gancho quando o projeto ainda vivia quase exclusivamente entre pessoas próximas.
Durante bastante tempo, a maioria dos acessórios saiu da bancada como presente. Ana produzia, oferecia e experimentava, mas evitava transformar esse trabalho numa atividade comercial regular. O travão estava ligado à situação profissional em que se encontrava. Depois de mais de 30 anos de jornalismo, período em que acompanhou sobretudo temas ligados ao trabalho, concertação social, Segurança Social, administração pública, turismo e saúde, saiu da profissão aos 60 anos e passou por um período de desemprego.
A formalização de um negócio significaria abdicar do subsídio antes de a marca ter capacidade para garantir um rendimento. Assim, os Cacos Meus Calhaus ficaram, na expressão de Ana, “um bocadinho a marinar”: suficientemente desenvolvidos para participar em feiras e integrar a Startup Barreiro, mas ainda limitados na possibilidade de vender com regularidade.
A saída do mercado de trabalho deu à marca uma dimensão que ultrapassa os acessórios. “Acabei por ser vítima de idadismo. Tinha 60 anos. Saí da rádio por isso e não consegui outras vagas por isso”, afirma. Ana viu colegas da mesma geração, e alguns mais novos, atravessarem situações semelhantes. A experiência aproximou-a do movimento Stop Idadismo em Portugal e reforçou uma questão que agora atravessa o projeto, mesmo sem ser anunciada em cada peça: quem decidiu que começar um negócio, aprender novas técnicas ou criar uma marca pertence apenas às fases iniciais da vida?
Durante o desemprego, Ana adotou uma frase que resume a forma como viveu esse período: “Desempregada, mas não desocupada.” Fez voluntariado, envolveu-se em iniciativas ligadas aos cuidadores informais, começou a praticar ioga, participou em eventos locais, tornou-se avó e continuou a desenvolver as peças. Em vez de esperar passivamente pela reforma, foi preparando o projeto que poderia ocupar a etapa seguinte.
Desde 1 de julho, já reformada, ganhou finalmente liberdade para avançar com a atividade comercial. “Agora posso chegar às Finanças e abrir a atividade. A partir daqui estou mais à vontade para dizer: está aqui para vender. Antes, eu não estava”, conta. O passo seguinte passa por reforçar a presença digital, aumentar a participação em feiras e aprender novas técnicas que permitam introduzir outros materiais, mantendo as conchas como protagonistas.
Os Cacosmeuscalhaus já passaram pelas Festas do Barreiro, pela Feira da Ginja e pela Festa da Natureza, experiências que ajudaram Ana a perceber como as pessoas reagem às peças fora do círculo de amigos. A exposição pública também a obrigou a pensar em quantidades, apresentação, preços e continuidade, questões próprias de qualquer negócio, mesmo quando o produto nasce de um passeio e cabe na palma da mão.
Na bancada de trabalho encontram-se agora brincos pequenos feitos com conchas discretas, modelos maiores, colares, pulseiras, ganchos, pregadeiras e algumas telas. Ana quer estudar novas técnicas e combinar outros materiais, mas mantém uma regra: a intervenção deve acompanhar aquilo que encontrou, em vez de apagar a identidade do fragmento.
“A mensagem que quero passar é que aquilo não é lixo. É um desperdício que pode ter uma nova vida”, explica. Depois corrige a formulação com uma frase que se tornou habitual dentro do projeto: “Eu costumo dizer que estou a dar vida aos meus calhaus.”
Essa segunda vida começará agora a circular com maior regularidade, depois de anos em que as peças eram oferecidas ou vendidas apenas de forma ocasional. Umas seguirão presas a ganchos, outras ficarão ao pescoço ou nas orelhas de quem as escolher. E talvez alguma, como aconteceu com o primeiro brinco, encontre um dia a forma de se soltar durante um passeio e regressar ao mar.
Carregue na galeria para conhecer algumas das peças criadas por Ana, que estará com uma exposição nas Festas do Barreiro, em agosto.
FICHA TÉCNICA
- MORADA
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2830-138 Barreiro








