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As peças de cerâmica fálicas deste artista português querem acabar com o pudor

Inspirado na tradição provocadora das Caldas, Galhanas dá formas de pénis a tudo o que pode imaginar.

Um burnout, em 2022, foi o que fez Rafael Galhanas começar a questionar o que realmente queria fazer. Depois de mais de 15 anos a trabalhar no mundo dos seguros, percebeu que estava na altura de passar por um período sem procurar trabalho (e sem se sentir mal por isso).

“O que aconteceu foi que, como queria chegar a outro nível profissional, decidi licenciar-me em direito”, recorda à NiT. “Quando termino o curso, percebo que em termos práticos não era tão interessante para mim. Esse esforço que andei a fazer durante cinco anos levou a esse esgotamento.”

Durante esse período, numa viagem a Málaga, experimentou cerâmica pela primeira vez. “Gostei do que sentia enquanto criava as peças. Desconectei-me de tudo o que existia à minha volta, entrei nesse processo criativo e via as peças a acontecerem”, continua.

Quando regressou a Lisboa, o artista de 39 anos começou a fazer workshops em vários ateliers até chegar às formas fálicas e assumidamente provocadoras pelas quais é conhecido. Inspirado na tradição irreverente das Caldas da Rainha, desenvolveu “um estilo direto” e que procura transgredir o pudor.

Apesar de apostar no humor com os formatos falos com uma aparência orgânica, Rafael faz questão que tenham todas uma funcionalidade. Cria cabides de parede, castiçais, candeeiros, queimadores de incenso, suportes para fotografias e até tem um dispensador de glitter que pretende provocar o riso.

Começou pelas canecas.

Estas ideias começaram a surgir em fevereiro de 2024, enquanto estava a fazer um estágio de um ano no CENCAL (Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica), nas Caldas da Rainha, focado na conceção e desenvolvimento do produto. “Fiz um trabalho de pesquisa sobre o caralho das Caldas e percebi que não havia artesãos a dar seguimento a este trabalho que, hoje em dia, está industrializado”, explica.

Ao mesmo tempo, surgiu uma questão. “E se reproduzisse uma versão mais orgânica, mais realista?”, refletiu. “Seria uma forma de conseguir exprimir-me e levar essa tradição para um universo que é meu, afastado do tipo de cerâmica satírica que era feita à base de frases e futebolistas.”

A primeira peça que criou, recorda-se, foi uma chávena tradicional com uma pega com uma forma fálica. Seguiram-se outros exemplos, muitas delas com expressões provocadoras (como “Se já levaste no cuzinho, esboça lá um sorrizinho” ou “tesudos também têm dias difíceis”, por exemplo) que começaram a chegar às casas das pessoas.

O objetivo é brincar, mas fazer com que as pessoas não olhem imediatamente para o formato do pénis. “Aquilo que me dá mais gozo é quando vejo alguém a olhar para o meu trabalho. Muitas vezes, ao início, não notam logo que há falos.”

Para isso, criou também outras esculturas menos óbvias como o Dicktapus, um polvo em que as formas fálicas surgem em cada um dos tentáculos. “Necessito desta conjugação com o surrealismo para que, de alguma forma, seja aceite. Retiro esse primeiro impacto no pudor e, depois, vou penetrando como quero nesta desconstrução do que é aceitável.”

O Dicktapus é mais surrealista.

Rafael ainda passou pelo Estúdio Torto, em Lisboa, mas atualmente cria cerca de 80 por cento das suas obras em casa. “Tenho uma boa estrutura e consigo fazer a produção por moldes. Modelo as peças, tenho o protótipo e, a partir daí, consigo fazer uma repetição numerosa.”

Outro desafio que surgiu é a aceitação dos mercados, que representam a esmagadora maioria das vendas. Fez o primeiro nas Caldas e já explorou alguns pela capital, como o XXXmas Market ou o Lisbon Queer Market, mas confessa que muitos não consideram as suas peças “enquadráveis” na oferta do evento.

“Tive de baixar as expectativas sobre a minha presença em determinados espaços, mas não costumo ter reações negativas naqueles em que participo. Nunca houve nenhuma ofensiva”, diz. “Acima de tudo, tenho pessoas que passam 30 minutos a falar comigo e que podem não comprar nada, mas cuja aceitação me comove.”

Nesta fase, Galhanas está a testar algumas novidades que quer introduzir no mercado, como dildos de porcelana, e a planear o aumento da escala de produção. A partir de janeiro, quer multiplicar o número de moldes da cerâmica e pretende continuar a fazê-lo sozinho. “Quando saí do mundo dos seguros, decidi que queria um trabalho onde não tivesse trabalhadores ou patrões.”

Além de encontrar o artista em mercados espalhados pela capital, pode encontrar algumas das suas criações na Etsy ou encomendá-las através do Instagram. Os preços começam a partir dos 12€.

Carregue na galeria para ver mais exemplos de peças criadas por Galhanas.

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