Entre as entradas da nova Bossa Burger há uma coxinha brasileira que chega à mesa sem a massa que normalmente envolve o recheio. A versão, criada pelos três sócios, custa 5,10€ por três unidades e parte apenas do frango: a sobrecoxa é cozinhada lentamente com legumes e caldo, desfiada, misturada com queijo creme, moldada e panada antes de ser frita. A referência continua a ser um dos salgados mais populares do Brasil, mas a receita foi alterada por Afonso Loubach, que já a preparava em casa muito antes de pensar em abrir uma hamburgueria.
A coxinha é uma das pistas brasileiras espalhadas pela carta da Bossa Burger, que abriu recentemente no Barreiro. Há também dadinhos de tapioca com molho de goiabada, mousse de maracujá e uma identidade que começa no próprio nome, inspirado na bossa nova. Por detrás do balcão estão três sócios vindos de duas pequenas cidades vizinhas do interior de Minas Gerais, no Brasil, que precisaram de atravessar o Atlântico para acabarem juntos no mesmo negócio em Portugal.
Afonso Loubach, de 32 anos, e Eliaz Júnior, 27, cresceram em Central de Minas. Katriny Sodré, de 28 anos, é de Itabirinha, ali perto. Afonso e Eliaz já eram amigos no Brasil, mas Eliaz só viria a conhecer Katriny depois de terem emigrado. A história que começou em duas pequenas localidades mineiras acabaria por se recompor deste lado do Atlântico: os dois foram viver para a zona de Évora, enquanto Afonso instalou-se na Margem Sul. Quando a ideia da Bossa começou a ganhar forma, os três voltaram a aproximar-se.
A nova hamburgueria começou quase às escondidas. O plano para os primeiros dias era trabalhar apenas com entregas, testar a cozinha e perceber onde estavam os erros antes de abrir oficialmente. Só que os vizinhos começaram a aparecer. “A ideia do soft opening era abrir apenas para delivery, mas houve interesse da vizinhança e começámos também a atender”, conta Afonso, um dos três sócios, que trabalhava na área da tecnologia e entretanto comprou casa no Barreiro.
Quando a ideia da hamburgueria deixou de ser conversa e começou a exigir decisões, Eliaz e Katriny mudaram-se para a cidade. A Bossa é o resultado dessa coincidência, mas também de contas bastante menos românticas. Nenhum dos três tinha capital para montar um grande restaurante, contratar uma equipa extensa ou encher uma cozinha de equipamentos. Queriam trabalhar com comida, gostavam de cozinhar e procuravam uma forma de entrar na restauração sem começar logo pela versão mais cara do sonho.
Até que apareceu a ideia dos hambúrgueres. “Para ser muito honesto, não foi a primeira opção”, admite Afonso. A vantagem estava na operação: uma carta mais curta, menos ingredientes em stock, a possibilidade de abrir apenas ao final do dia e espaço para aprender enquanto o negócio crescia. “Foi uma porta de entrada para este universo.”
A escolha explica por que razão a carta não tenta impressionar pelo número de páginas. O Bossa Cheeseburger custa 9,90€ e leva pão brioche selado na manteiga e 180 gramas do blend bovino da casa. O Bossa Salada fica nos 10,50€, enquanto o Bossa Egg & Bacon custa 11,90€. O mais pesado do grupo é o Double Cheddar & Bacon, com dois hambúrgueres e 240 gramas de carne, por 12,90€.
Quem preferir transformar o hambúrguer numa refeição completa, pode pedir os combos, com batatas e bebida. O Bossa Cheeseburger passa para 13,90€, o Bossa Salada para 14,40€ e o Double Cheddar & Bacon fica nos 16,10€. Para delivery, o preçário inclui taxas de entrega e dos aplicativos.
A equipa faz praticamente tudo o que consegue dentro da própria cozinha. Prepara os hambúrgueres, as maioneses, molhos e entradas, enquanto o pão é comprado a um fornecedor artesanal. Foi uma decisão tomada ainda antes da abertura: em vez de aumentar a carta, preferiram controlar o que servem. “Queríamos ter menos opções, mas com produtos de qualidade”, explica Afonso.
Além da coxinha que abre a carta de entradas, há seis dadinhos de tapioca por 4,20€, acompanhados por um molho de goiabada preparado na casa. Os croquetes de pulled pork custam 5,10€, as batatas fritas simples ficam por 3,40€, a versão com cheddar e bacon sobe para 5,10€ e as batatas cobertas com pulled pork chegam aos 5,90€.
A sobremesa volta a trazer um sabor familiar aos brasileiros: há mousse de maracujá por 4,20€. Quem preferir chocolate, encontra um brownie com gelado e caramelo por 5,10€.
Tecnologia, conteúdos e hamburgueria
O nome Bossa não surgiu por acaso. A referência à bossa nova ajuda a construir uma identidade brasileira que continua na decoração, com palha, materiais naturais e uma atmosfera tropical, sem transformar o restaurante numa coleção de clichés.
Afonso conhece o outro lado da restauração antes de entrar nela como proprietário. Além do trabalho como analista de tecnologia numa empresa ligada às energias renováveis, faz gestão de redes sociais para restaurantes e mantém um projeto de vídeos em que visita espaços e relata a experiência. Começou quase por acidente: publicou um primeiro conteúdo num perfil antigo de receitas, percebeu que funcionava e continuou. Um dos vídeos seguintes, feito numa feira, ultrapassou as 100 mil visualizações.
Foi a visitar restaurantes que começou a olhar com outros olhos para esta zona da Margem Sul. “Vi que estava a haver uma cena gastronómica muito boa por aqui”, diz. Ao mesmo tempo, procurava casa no Barreiro e os amigos preparavam-se para sair de Évora.
O espaço que encontraram já tinha funcionado como café e possuía parte da estrutura necessária para trabalhar com comida. Isso permitiu reduzir o investimento e concentrar o orçamento disponível na adaptação da cozinha e na nova imagem. Lisboa foi praticamente excluída pela mesma razão que levou os três a começar com hambúrgueres: os preços elevados.
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Eliaz trocou o trabalho na indústria aeronáutica em Évora pela Bossa. Katriny, que trabalhava numa casa de família, também está dedicada ao novo negócio. Afonso continua a dividir os dias entre tecnologia, conteúdos e hamburgueria. “Somos nós que fazemos tudo.”
A hamburgueria funciona de quarta-feira a domingo, entre as 19 e as 23 horas, e a intenção é manter a operação pequena enquanto afinam os processos. Mais tarde poderão aparecer almoços, outros pratos e, se o primeiro espaço resultar, novas unidades.
A Bossa Burger começa com uma carta curta e uma história bastante maior do que o espaço onde é servida. Central de Minas e Itabirinha ficaram no Brasil, Évora ficou para trás e o Barreiro tornou-se casa. Aqui, os três encontraram o ponto onde esses percursos se cruzaram — agora entre hambúrgueres, tapioca, goiabada e uma coxinha que chegou a Portugal sem a massa.
Carregue na galeria para conhecer os pratos do menu do Bossa Burger.







