No coração do Mercado Municipal 1.º de Maio, no Barreiro, um espaço aberto há poucos meses conseguiu o que muitos projetos levam anos a alcançar: criar identidade, gerar conversa e tornar-se referência. A Sarilho – Pão e Vinho foi distinguida como Abertura do Ano no Prémio NiB 2025, uma escolha editorial que reconhece os projetos que mais marcaram o ano na cidade pela sua relevância, impacto e qualidade.
A Sarilho abriu em maio e rapidamente passou a fazer parte da rotina do mercado. O fluxo constante de pessoas à frente do balcão não se explica apenas pela curiosidade inicial. O que segura quem entra é o essencial: o pão é feito todos os dias, com tempo e método. O cheiro denuncia o forno ainda antes de se perceber a variedade. Não há pressa no espaço, nem na forma como o produto é apresentado.
O projeto nasce da mesma equipa responsável pelo Voraz, com os chefs Tiago Emanuel Santos e Bruno Xavier a liderarem a visão gastronómica do espaço. A experiência acumulada no Voraz serviu de base, mas a Sarilho seguiu um caminho próprio, centrado na panificação artesanal e na produção integral no local.
A decisão foi clara desde o início. Como explicou Tiago Emanuel Santos, a intenção passou por “seguir a linha das antigas padarias, que tinham os pães, doces e salgados do dia disponíveis até acabar o stock. É tudo feito aqui, não há produtos congelados”. Essa opção define o ritmo da casa e a relação com quem compra: o que existe foi feito naquele dia, com o tempo que foi preciso.
A base de tudo é a fermentação lenta e o uso exclusivo de massa mãe. As farinhas, maioritariamente portuguesas, são trabalhadas respeitando o ritmo natural do pão, sem acelerações artificiais. No balcão, o país aparece em várias formas. Há referências ao pão de cornos da Vagueira, ao pão de Mafra e a receitas da Beira Interior, ao lado de doces e salgados que recuperam preparações tradicionais. Fogaças, bicas de azeite, línguas da sogra e outras especialidades surgem conforme a produção diária e a evolução da carta.
O trabalho de Nuno Pontes na padaria e pastelaria garante essa consistência, mantendo as receitas fiéis à sua origem, mesmo quando são ajustadas ao contexto atual. O nome do espaço ajuda a entender a sua identidade. “Sarilho” remete para os antigos moinhos, para a ideia de movimento e transformação, e liga-se à história local. Já o “Pão e Vinho” aponta para uma ambição mais ampla, onde o pão é o centro, mas não o limite. A seleção de vinhos prolonga essa lógica, aproximando dois produtos que sempre caminharam juntos na cultura alimentar portuguesa.
Com o passar dos meses, a Sarilho deixou de ser apenas uma novidade. Tornou-se ponto de paragem diária, lugar de conversa breve, espaço de descoberta. Há quem regresse pela memória, quem volte pela qualidade e quem encontre ali uma alternativa mais tolerável aos pães industrializados, graças à fermentação natural. Essa relação contínua com a comunidade fez com que a padaria se integrasse de forma orgânica no ritmo do mercado e da cidade.
O Abertura do Ano reconhece exatamente isso: a capacidade de criar raízes em pouco tempo. Num cenário em que muitas aberturas passam sem deixar rasto, a Sarilho afirmou-se com identidade, coerência e ligação direta a quem a frequenta. O prémio distingue um começo sólido e aponta para um percurso que se constrói dia após dia, fornada após fornada.

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