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Neste restaurante no Barreiro, a cachupa fica ao lume sempre que Cabo Verde jogar

O Cachupa Brr vai transformar o domingo numa festa com música, grogue e nervos até ao jogo com o Uruguai.

Quando Cabo Verde voltar a entrar em campo no Mundial 2026, o Cachupa Brr vai estar aberto muito depois da hora em que um domingo costuma acabar no Barreiro. O jogo com o Uruguai está marcado para as 23 horas de 21 de junho, mas no restaurante de Estevão Gomes, a preparação começa bem antes, à hora do almoço, com música ao vivo, cachupa ao lume, cerveja fresca, grogue, ponche e aquela mistura de nervos e orgulho, que só acontece quando uma seleção pequena chega pela primeira vez ao maior palco do futebol.

O espaço fica no Barreiro há sete anos e já era ponto de encontro para muitos cabo verdianos da cidade, antes de o Mundial transformar cada jogo numa pequena festa nacional. Aos domingos, a casa costuma vender mais de 60 doses de cachupa, o prato que dá nome, identidade e cheiro ao restaurante. Desta vez, a conta pode subir.

Estevão quer manter o almoço com o ritmo habitual, receber o grupo de música ao vivo entre as 13 e as 16 horas, deixar a tarde ganhar conversa e continuar aberto para quem quiser ver o jogo à noite. “Vamos estar abertos”, diz. Depois da partida, independente do resultado, fecha. A essa hora, já terá sido um dia longo.

A estreia de Cabo Verde no Mundial fez o resto. O empate a zero frente a Espanha, campeã europeia e uma das favoritas da competição, transformou uma primeira participação histórica num acontecimento ainda maior. Estevão, de 66 anos, admite que entrou no jogo preparado para sofrer. “Pensei que Espanha nos ia bater cinco a zero. Está tudo bem, seja zero, seja o que for.”

O que aconteceu foi outra coisa. Cabo Verde defendeu, resistiu, teve organização e viu o guarda-redes Vozinha fazer uma exibição que ficou no centro das conversas. “Fez o possível e o impossível”, resume.

No Cachupa Brr, o empate foi vivido com cabo verdianos e portugueses juntos. Estevão diz que 90 por cento da clientela habitual é portuguesa, mas que o Mundial alargou o abraço. “Os portugueses sofreram connosco, tal e qual nós sofremos.” Muitos clientes passaram para dar os parabéns, outros mandaram mensagens, alguns apareceram só para falar da seleção. A surpresa da estreia criou uma corrente de simpatia que Estevão sente dentro e fora do restaurante. “Ninguém estava à espera desta emoção.”

Estevão e Filomena

Cabo Verde chegou ao Mundial pela primeira vez em 2026, depois de uma qualificação que já tinha feito história no arquipélago e na diáspora. O país tem pouco mais de meio milhão de habitantes e uma comunidade espalhada por vários continentes, com ligações fortes a Portugal. Esse dado torna cada jogo mais do que uma partida de futebol. Para quem vive fora, o Mundial funciona como uma chamada coletiva para casa, mesmo quando a casa está a milhares de quilómetros.

Estevão sabe bem o que significa viver longe. Nasceu em Cabo Verde, a 26 de dezembro de 1959, e saiu do país em 1984, aos 25 anos. Passou pelo Senegal, por Espanha e Portugal antes de seguir para o Reino Unido, onde viveu e trabalhou durante 30 anos. Ele e a mulher, Filomena, trabalharam juntos para “uma família multimiluinária”.

Estevão formou-se como mordomo e fala dessa profissão com o cuidado de quem aprendeu que uma casa só funciona quando tudo está no lugar. “Gostava muito do meu trabalho. Tinha de estar tudo impecável, a funcionar como um relógio.”

A vinda para Portugal teve uma razão familiar. O casal queria estar mais perto dos seus, de Cabo Verde e de Portugal. Estevão já tinha ligação ao Barreiro desde 1990, através de uma casa na cidade, e fala do concelho como quem encontrou pouso, depois de muitos anos de deslocações. “O Barreiro amparou-nos. Sentimo-nos muito bem.” Quando abriram o restaurante, a intenção era criar um lugar de comida e encontro. Hoje, com o Mundial, esse lugar ganhou outra função. Passou a ser sala de estar de uma comunidade em festa.

Cachupa bem servida a 10€

A cachupa é o centro dessa sala. No Cachupa Brr, Filomena comanda a cozinha e a equipa já aprendeu a seguir a lógica da casa. A base está preparada, mas a finalização acontece no momento, quase como se fosse um prato feito à medida. O cliente pode pedir a versão tradicional, ou sugerir variações com bacalhau, camarão, carne de vaca ou peixe. Estevão gosta dessa troca. Diz que muitos portugueses já conhecem bem a cachupa, porque viajaram para Cabo Verde, têm amigos, compadres, família ou convivem com a comunidade. “Quando alguém nos diz que quer uma cachupa com determinado sabor, respeitamos.”

A dose tradicional ronda os 10€ e chega à mesa bem servida. Para petiscar, há também pastel de milho, a 1,50€. A cerveja média custa 1,90€ e o grogue, destilado de cana de açúcar típico de Cabo Verde, sai a 2,50€. Estevão explica a bebida com gosto de professor, quase comparando com a cachaça brasileira, mas marcando a diferença no processo. Em Cabo Verde, a cana é triturada para fazer caldo, que fermenta durante várias semanas antes da destilação. O resultado é claro, forte e direto. Para quem prefere algo mais doce, existe ponche, feito com mel, aguardente e limão.

Na sobremesa, a casa serve mousse de camoca, ou seja, farinha de milho torrado e triturado, usada numa mousse fria com natas, leite condensado e sabor de memória recente, por 2,50€. O doce entrou na carta depois de um pedido de clientes cabo-verdianos, que queriam uma refeição mais ligada à infância e à família.

O restaurante também tem guitarras nas paredes e assume esse lado de galeria e ponto de convívio. A música ao vivo, dos domingos, junta repertórios cabo-verdianos, brasileiros, portugueses e angolanos, numa mistura que combina bem com a sala. Para o dia do jogo, Estevão vê esse almoço como aquecimento emocional. A noite será outra coisa. Às 23 horas, quando Cabo Verde defrontar o Uruguai em Miami, o Barreiro vai estar acordado numa mesa de cachupa.

A fase de grupos continua depois, na madrugada de 27 de junho, quando Cabo Verde joga com a Arábia Saudita à 1 hora. Depois do empate com Espanha, a conversa deixou de ser apenas participar. Passou a haver uma possibilidade, ainda que difícil, de seguir em frente. Estevão sorri quando fala disso. “Passar para a segunda fase já é sonhar muito.” Mesmo assim, o sonho entrou pela porta.

Para ele, o mais importante já começou. Cabo Verde está a ser visto, falado, abraçado. O país mostra-se pelo futebol, mas também pela comida, pela música, pela forma como a diáspora ocupa restaurantes, cafés e salas de estar para transformar distância em presença.

No domingo à noite, no Cachupa Brr, a festa pode durar pouco ou muito, pode acabar em empate, vitória ou derrota. A mesa, essa, já está posta para uma história que ninguém ali quer ver sozinho.

Carregue na galeria para conhecer alguns dos pratos do Cachupa Brr.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua Almirante Reis, 22 B
    2830-326 Barreiro
  • HORÁRIO
  • Todos os dias, das 11h às 23h
PREÇO MÉDIO
Entre 10€ e 20€
TIPO DE COMIDA
Cabo-verdiana

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