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Nesta cantina no Barreiro, os clientes são sócios (e convidados a lavar o próprio prato)

Entre menus vegetarianos, chá servido à vontade e reservas antecipadas, a Mula funciona com regras muito próprias.

Na Cantina da Mula, o almoço de comida vegan pode terminar com as mãos no lava-loiça, atrás do bar. A cena faz mais sentido quando se percebe que aquele espaço do Largo de Santo André, no Barreiro, nunca quis funcionar como um restaurante convencional. Quem come ali é sócio, reserva antecipadamente, serve o próprio chá, escolhe onde se senta, levanta a mesa no fim e, se tiver tempo e vontade, pode deixar também o prato lavado.

Depois de uma pausa de verão, a cozinha regressa esta terça-feira, 11 de agosto, por enquanto apenas com almoços, e mantém uma proposta onde a comida de base vegetal anda lado a lado com uma ideia muito própria de vida associativa.

A primeira coisa a saber é que a Cantina pertence à Cooperativa Mula e, por isso, não funciona segundo a lógica de entrar, pedir e pagar a conta. Para usufruir do espaço é preciso tornar-se sócio, com uma quota anual de 4€, batizada internamente de “quatro coices”. A partir daí, começa-se a receber por e-mail a newsletter com a programação, a ementa semanal e o formulário para reservar as refeições. O modelo aproxima quem vai comer da própria estrutura que mantém a casa aberta, uma lógica coerente com a Mula, que se apresenta como um espaço cooperativo dedicado à cultura, ao apoio comunitário e à sustentabilidade.

Até a explicação sobre como tudo funciona foge ao habitual. Em vez de um regulamento pendurado na parede, a Cantina criou uma banda desenhada feita à mão, protagonizada por uma personagem que chega pela primeira vez e aprende o percurso. Torna-se sócia, consulta o menu publicado nas redes sociais, preenche o formulário, entra, serve um chá e escolhe a mesa.

A comida encomendada é levada até lá. No fim, a recomendação passa por deixar o espaço como estava. A lavagem da loiça não é uma obrigação escondida no preço da refeição, mas um convite dirigido a quem tenha disponibilidade para participar um pouco mais.

Essa maneira de funcionar explica também por que razão as reservas são importantes. A Cantina pede que os pratos sejam encomendados com antecedência para conseguir preparar as quantidades necessárias, numa cozinha que trabalha com uma ementa diferente a cada semana. O menu e o formulário costumam ser divulgados ao domingo nas redes sociais da casa, e as reservas também podem ser feitas através do número 925 843 130.

Quem preferir comer noutro lugar, pode levantar a refeição em recipientes próprios ou usar as embalagens disponibilizadas pela Cantina. Mesmo nesta fase sem jantares presenciais, continuam previstas entregas entre as 19h30 e as 20h30, sendo possível pedir ao final do dia o prato que foi preparado para o almoço.

Menu com pratos vegetarianos

O regresso de 11 de agosto começa com linguini de espinafres e cogumelos, pesto de tomate seco, amêndoas torradas e manjericão. Na quarta-feira chegam croquetes de cenoura e nozes acompanhados por arroz de limão e chutney de manga, na quinta é dia de tofu marinho com broa de milho, batatinha a murro e maionese de alho e coentros. Estes três almoços são vegan. A sexta-feira fecha a semana com a lasanha da casa, uma proposta vegetariana preparada com lacticínios.

A cantina serve comida vegetariana. Cogumelos, frutos secos, tofu, legumes, ervas, pesto, chutney, broa e especiarias aparecem combinados numa ementa que muda constantemente e que procura construir uma refeição completa, sem reproduzir o esquema tradicional da proteína animal no centro do prato.

No formulário de reservas, a Cantina detalha os preços: o prato principal custa 6,5€, a sopa 1,5€ e a sobremesa 2,5€. Para quem almoçar no espaço, existe ainda um menu completo por 10€, que inclui sopa, prato principal, chá do dia, sobremesa e café. As sobremesas mudam ao longo da semana: na terça-feira há panacota de frutos vermelhos, na quarta pudim de abacaxi, na quinta mousse de limão e, na sexta, gelado de chocolate. Quem optar pelo takeaway pode levar recipientes próprios ou pedir embalagem descartável por mais 0,30€. As entregas ao domicílio, feitas nesta semana ao início da noite, têm uma taxa entre 2 e 2,5€.

A Mula nasceu em 2016, a partir de uma experiência anterior ligada à Horta Comunitária do Barreiro, iniciada em 2012. O projeto foi construído em torno de princípios de igualdade, horizontalidade e participação comunitária e instalou-se num edifício devoluto que os cooperantes foram recuperando para receber atividades culturais, ambientais, alimentares e sociais. Ao longo dos anos, o Largo de Santo André tornou-se endereço para concertos experimentais, sessões de cinema, oficinas, debates, iniciativas sobre sustentabilidade e, claro, comida.

 

 
 
 
 
 
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Cantina nasceu de uma rede de apoio alimentar durante a pandemia

A história da cantina ganhou um significado diferente durante a pandemia. Em março de 2020, a Cooperativa criou uma Cantina Solidária e, posteriormente, uma rede de cabazes que apoiou mais de 200 pessoas dos concelhos do Barreiro e da Moita até junho daquele ano. O trabalho valeu à Mula uma distinção local na área da solidariedade social e mostrou como a cozinha podia ser usada para algo bastante mais amplo do que servir refeições.

O formato atual já pertence a outra fase, mas algumas ideias sobreviveram. Reservar antes reduz a possibilidade de cozinhar em excesso, levar um recipiente próprio evita mais embalagens, pagar uma quota liga o cliente à associação, levantar a mesa aproxima quem come de quem mantém o espaço e lavar a loiça, para quem quiser fazê-lo, talvez seja a imagem mais fácil de perceber de todas. Na Mula, participar não acaba quando o prato fica vazio.

A Cantina funciona no Largo de Santo André, 3, no Barreiro, e reabre esta terça-feira com serviço de almoço até sexta-feira. Para quem aparecer pela primeira vez, não é preciso decorar todas as regras antes de entrar: a banda desenhada criada pela própria casa encarrega-se de explicar o percurso. E, algures entre o linguini, o chá e o lava-loiça da antiga capela, percebe-se rapidamente que a refeição faz parte de uma ideia maior sobre como uma casa coletiva pode funcionar.

Carregue na galeria para conhecer alguns dos pratos da Cantina da Mula.

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