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Marwah fugiu da guerra e recomeçou no Barreiro. Hoje, faz doces que contam a sua história

Aprendeu os truques com a mãe no Iraque, profissionalizou-se na Turquia e hoje prepara baklava, kalija e kunafa em casa.

Na cozinha de Marwah Ali Yousif, no Barreiro, a massa estende-se com a paciência de quem já percebeu que certas coisas só se mantêm vivas quando passam pelas mãos. Nada ali existe apenas para matar a fome ou adoçar a tarde. Cada tabuleiro de doces iraquianos que sai, leva mais do que açúcar, tâmaras, frutos secos ou calda. Leva percurso, insistência e, sobretudo, uma forma muito concreta de não deixar desaparecer o lugar de onde veio.

Marwah tem 36 anos, nasceu em Bagdade e vive em Portugal há sete. Quando fala do Iraque, a primeira imagem que dá não é a da guerra, mas a de uma vida organizada. A família tinha rotina e estudos. “Tínhamos uma vida simples, mas estável”, contou à NiB. O marido trabalhava como representante numa empresa farmacêutica. Ela frequentava a universidade. Os dias dividiam-se entre trabalho, estudo e casa, até que tudo se rompeu de um momento para o outro.

O marido foi atingido por um tiro nas costas. Durante seis meses, a família viveu entre o hospital, o medo e a expectativa. Depois vieram as ameaças, as deslocações forçadas dentro do próprio Iraque, a sensação de que o chão deixara de existir como lugar seguro.

O que antes era vida, passou a ser sobrevivência. No fim, a família fez o que tantas outras fazem quando o país se torna impossível: saiu. “Não tivemos outra escolha senão sair do país, deixando para trás a nossa casa, as nossas memórias e toda a nossa vida.”. Hoje, Marwah vive com o marido, Mohammed Al-Bawi, de 41 anos. O casal tem dois filhos, Jaafar Himt, de 15 anos, e Murad Himt, de quatro. O mais novo da família já nasceu em Portugal

A primeira paragem foi a Turquia. Marwah fala desse período como o começo de outra vida, uma fase em que “tudo era novo ao mesmo tempo”: a língua, os códigos, a rotina, a exigência de se adaptar depressa, sem nunca ter pedido para começar do zero.

Estudou turco, conseguiu um certificado e, enquanto se tentava encaixar numa realidade estranha, começou a trabalhar na pastelaria. A doçaria, que até ali fazia parte da sua história familiar, transformou-se então noutra coisa. Deixou de ser apenas herança doméstica e passou a ser ofício.

Os doces já vinham da infância. Marwah aprendera com a mãe, entre receitas transmitidas em casa e mesas onde a comida tinha também valor de celebração. No Médio Oriente, a doçaria está profundamente ligada aos encontros, às datas marcantes, ao gesto de receber bem.

Ela cresceu nesse universo, leu livros sobre pastelaria oriental e procurou “aperfeiçoar técnicas”. Na Turquia, esse repertório encontrou uma dimensão profissional. Primeiro vendeu doces. Depois começou a trabalhar “como assistente de um chef conhecido, participando na preparação de encomendas para festas e eventos em várias cidades”. Com o tempo, tornou-se a principal assistente.

Há uma diferença importante entre saber fazer e fazer daquilo uma vida. Marwah atravessou exatamente essa passagem. O que aprendera com a mãe ganhou método, consistência, exigência técnica. E o que podia ter ficado apenas como habilidade antiga tornou-se “instrumento de sustento”. 

Marwah deixa de ser apenas uma mulher que carrega memórias culinárias da infância e passa a ser uma profissional capaz de produzir, vender, adaptar-se e crescer através desse saber.

Do espanto de provar algo desconhecido às encomendas

Quando chegou ao Barreiro, trouxe consigo essa bagagem. Aqui, começou devagar. Primeiro, fez doces para amigos e vizinhos, sobretudo portugueses. As encomendas nasciam do boca a boca, da curiosidade, do espanto de provar algo desconhecido. Foram esses primeiros clientes que a empurraram para a etapa seguinte. “Diziam-me que mais gente gostaria de provar aqueles doces, que aqueles sabores não deviam ficar fechados entre conhecidos”.

Hoje, continua a trabalhar a partir de casa. Organiza encomendas, prepara tudo sozinha e divulga o trabalho através do Instagram. Ainda é um projeto em construção, com o tamanho das possibilidades que foi conseguindo abrir dentro da vida familiar. A maioria dos clientes já é portuguesa. Muitos nunca tinham provado doçaria iraquiana ou oriental antes de a conhecerem. Agora voltam, recomendam, fazem pedidos regulares.

“Atualmente trabalho a partir de casa e preparo tudo sozinha. Organizo os pedidos, preparo os doces e faço a divulgação através do Instagram. Tento equilibrar o trabalho com a vida familiar, o que nem sempre é fácil, mas faço-o com dedicação”, conta.

Os doces produzidos por Marwah explicam tanto quanto a biografia. A baklava chega em camadas finas de massa filo, com frutos secos e calda, num jogo preciso entre crocância e doçura. A basbousa é feita de sêmola e embebida em xarope, é mais densa, húmida e marcada. A kunafa, por sua vez, abre outra dimensão de sobremesa: massa desfiada e estaladiça, recheio de queijo ou creme, e uma calda que remata um doce pensado para impressionar tanto pela textura, como pela presença à mesa.

Mesmo assim, quando fala do doce mais importante, escolhe outro. A kalija iraquiana surge como centro afetivo da sua cozinha. É a que liga de forma mais nítida a receita à identidade. Feita com ingredientes naturais, como tâmaras e frutos secos, seguindo receitas familiares, tem um valor que ultrapassa largamente o paladar. “Não é apenas um doce, mas parte da nossa história e das nossas tradições, especialmente nas festas”, explicou. 

Essa dimensão torna-se ainda mais forte quando Marwah descreve o que estes doces representam. “São memória, identidade e resistência”, disse. Numa formulação curta, reuniu tudo o que o seu trabalho contém. Memória, porque cada receita remete para a infância, para a mãe, para o Iraque antes da ruptura. Identidade porque o que prepara continua a dizer de onde vem, mesmo estando a milhares de quilómetros de Bagdade. Resistência, porque fazer estes doces é também recusar que a violência, o exílio e a distância apaguem o que a constitui.

Para produzir os doces, Marwah confessa que encontra os produtos nos mercados da Grande Lisboa, e poucas iguarias mais específicas em restaurantes do médio oriente, na capital.  

No Barreiro, a resistência de Marwah ganha um tom menos abstrato e mais quotidiano. Está na cozinha improvisada em oficina, no cuidado de preparar tudo sozinha, na tentativa de equilibrar trabalho e vida familiar, na aprendizagem contínua do português, no esforço para transformar o que hoje ainda é um projeto doméstico num espaço mais estável.

Marwah sonha com uma loja ou um quiosque. Gostava de vender em unidades, alargar a clientela, crescer com apoio, consolidar o negócio. “Gostaria de ter a oportunidade de desenvolver melhor as minhas competências, especialmente na língua portuguesa, e também de ter um pequeno espaço, como uma loja ou um quiosque, onde possa trabalhar, crescer e expandir este projeto. O meu objetivo é simples: viver com dignidade, desenvolver o meu trabalho e partilhar a cultura iraquiana através dos sabores.”

O Barreiro tornou-se, nas suas palavras, uma “cidade especial”. Foi aqui que começou outra fase da sua vida. Foi aqui que o Iraque ganhou continuação possível, como presença ativa no presente através dos doces.

Marwah encontrou na nova rotina no Barreiro uma prova de que a reconstrução nem sempre acontece em grandes gestos. Às vezes, começa numa receita guardada, na massa bem feita, no cliente que regressa, no doce que consegue carregar uma vida de uma família lá dentro.

Quem quiser provar os doces feitos por Marwah, pode fazer a encomenda no Instagram da dubaisweets. A kalijah vende-se ao peso (1 quilo custa 30€ e 500gr são 15€). Cada baklava custa 1,5€, a basbousa sai a 1,5€ e kunafa a 2€.

Ao final da entrevista, perguntámos como a família acompanha do Barreiro os conflitos que ocorrem na região de onde vieram. “Saímos do Iraque em 2013 e ainda lá estão familiares, o que nos preocupa por causa dos preços de vários produtos. Isto porque que o Iraque depende do gás iraniano e já ocorreram algumas interrupções no seu abastecimento”, explicou.

Carrega na galeria para conhecer os doces que Marwah trouxe de Bagdade para o Barreiro.

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