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Há um novo café no Barreiro que junta skate, ioga e um detox de notícias

Não há telejornais, nem pressa: só boa música, comida caseira e um espaço pensado para respirar fundo.

No Barreiro, há um novo mural que não está na rua, mas sim escondido entre quatro paredes. O Grind Café abriu as portas para unir a comunidade urbana sob o mesmo teto. Com uma decoração que respira surf, skate e ioga, o espaço de Sofia Sela e Miguel Jesus é um manifesto contra a azáfama diária. Ali, a televisão passa apenas imagens que inspiram, pois “é um lugar para desintoxicar”, e o ambiente vibra com a cadência do reggae e do jazz.

É um café com alma de bairro e espírito livre, onde se pode entrar para um pequeno-almoço rápido ou ficar para um evento de ioga com “ervas, chás e segredos”. Esta história ganha vida através da união de Sofia Sela, de 50 anos, e Miguel Jesus, de 48 anos. O casal encontrou neste projeto o ponto de equilíbrio perfeito para fundir paixões antigas com um novo percurso profissional.

Sofia, que durante anos viveu imersa no universo da informática e do marketing como gestora de conteúdos, sentiu a necessidade de uma transformação profunda. “Decidi mudar radicalmente de vida há quase 15 anos”, partilha a proprietária enquanto recorda o percurso que a levou das salas de servidores aos tapetes de ioga. Hoje, essa serenidade flui livremente pelas paredes do Grind Café, onde o exercício físico se mistura com a arte de bem receber.

O espaço nasceu de uma oportunidade única de ocupar um local amplo, capaz de albergar visões distintas que se complementam de forma orgânica. Miguel, natural do Barreiro desde a infância, traz consigo a herança das ruas e a cultura do skate. Para ele, deslizar sobre rodas é muito mais do que um passatempo.

“Sempre foi mais por prazer. Para mim funciona como uma meditação”, explica. Essa visão espiritual do desporto cruza-se com a prática de Sofia, professora de ioga experiente. “Meditação na verdade é tudo. A dança é uma meditação, andar de skate é uma meditação para o Miguel”, acrescenta ela, reforçando a ideia de que o café funciona como um portal para quem deseja desligar da correria exterior.

A decoração é um reflexo deste estilo de vida. O mural que capta as atenções vai sendo montado com memórias de eventos passados e elementos que definem a identidade do casal. Entre os detalhes mais curiosos encontra-se uma tábua de skate exclusiva, desenhada pela marca portuguesa NO23, apresentando um leão meditativo que segura uma cerveja e um café.

Este símbolo resume a essência do Grind Café, que comercializa estas tábuas, elevando o conceito de cafetaria para uma loja de artigos desportivos com curadoria artística.

Sofia Sela e Miguel Jesus
Miguel Jesus e Sofia Sela

Na vertente gastronómica, a aposta recai sobre a frescura e a qualidade dos ingredientes. Sofia dedica-se à preparação de iguarias que aquecem a alma. O aroma dos cinnamon rolls, feitos diariamente com massa amassada na hora, invade o ar e convida os clientes a permanecerem mais um pouco. Estes rolinhos de canela, vendidos a 2€, tornaram-se uma especialidade da casa, competindo em popularidade com a granola caseira servida com mirtilos, uvas, banana e iogurte, finalizada com mel por 3,80€.

A preocupação com o bem-estar reflete-se em cada escolha do menu. O café servido é o lote platina da Delta, moído no grão para garantir a pureza e o efeito desintoxicante. Sofia e Miguel optaram por excluir a soja, preferindo a bebida de aveia para quem procura alternativas ao leite de vaca convencional. “Temos alimentação biológica e convencional, com destaque para as nossas quiches vegetarianas, a 3,30€ a fatia, e a sopa com batata-doce por 2,50€”, detalha Sofia.

Mesmo mantendo parcerias com pastelarias tradicionais do Barreiro, para oferecer bolos clássicos, o casal foca-se em proporcionar opções saudáveis e artesanais, que respeitem o corpo.

As bebidas seguem este padrão de diferenciação. Além da taça de vinho a 2€ e da cerveja bem gelada, o Grind Café destaca-se por oferecer refrigerantes naturais. Estas bebidas utilizam apenas o açúcar das frutas e das ervas, apresentando misturas exóticas de gengibre, pepino ou erva-mate. “É o nosso refrigerante que sai mais”, revela o casal, orgulhoso por trazer para o Barreiro produtos que geralmente só se encontram em lojas especializadas em Lisboa.

O ambiente sonoro é outra peça fundamental do puzzle. O reggae, o jazz e o rock dominam as colunas, criando uma atmosfera que convida ao convívio entre amigos e desconhecidos. É um espaço de partilha onde as energias se cruzam de forma positiva. Miguel mantém a sua atividade paralela numa empresa de transportes, enquanto Sofia se entrega totalmente à gestão do café e das aulas de ioga. Em breve, o mês de abril trará eventos especiais que unem a prática do ioga a experiências sensoriais envolvendo chás, ervas e música ao vivo.

A história pessoal de Sofia e Miguel confere ao lugar uma autenticidade rara. Depois de unirem as famílias, (Sofia tem dois filhos e Miguel um), o Grind Café é o primeiro projeto físico que constroem em comum. A ideia do casal é que o espaço se posicione como um refúgio urbano, onde a cultura do skate e a paz do ioga coexistam em harmonia.

É um convite para entrar, respirar fundo e apreciar as coisas simples da vida. Seja para uma refeição leve, para comprar equipamento desportivo ou apenas para ouvir boa música enquanto se saboreia um cappuccino natural com canela, o espaço de Sofia e Miguel afirma-se como um ponto de paragem para quem procura autenticidade no coração do Barreiro. 

O nome do café também ajuda a perceber o que se passa ali dentro. Numa das paredes, “grind” aparece explicado como verbo: tanto pode significar moer, esmagar ou transformar alguma coisa em partículas pequenas, como repetir uma tarefa vezes sem conta, até chegar a um objetivo (o conceito é usado muito no skate e na repetição de manobras).

Ao lado, “surfer” surge menos como desporto e mais como maneira de estar, alguém que atravessa as ondas do mar e da vida com espírito leve e aventureiro. Juntas, as duas palavras funcionam quase como um manifesto discreto do espaço: um lado mais insistente, de trabalho diário e construção lenta, e outro mais solto, ligado ao skate, ao surf, ao prazer e à forma como Sofia e Miguel querem que as pessoas se sintam ali.

Carregue na galeria para perceber como o Grind Café juntou skate, ioga, café e convívio no mesmo espaço.

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