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Esqueça as batatas fritas: nesta casa barreirense o choco frito vem com arroz de feijão

Luís Figueiredo abriu uma casa com apenas 25 lugares, onde serve pratos ligados à memória, à família e aos seus 30 anos de cozinha.

Luís Figueiredo abriu as portas do seu restaurante à New in Barreiro no preciso dia em que completava 30 anos de cozinha. Foi também o dia em que teve que explicar porque é que decidiu, há muitos anos, eliminar a batata frita da ementa do Cantinho do Figueiredo e servir o típico choco frito com arroz de feijão.

Luís tem 52 anos, nasceu no Barreiro e continua ligado à margem sul pela família, pelos amigos e pelas raízes. A alcunha Carapau acompanha-o desde a preparatória e acabou por entrar também na identidade do restaurante. O peixe surge no logótipo, encaixado no nome Figueiredo, com um anzol pensado quase como brincadeira. “Faz parte do meu nome, faz parte da minha história”, explica.

Estudou na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa entre 1995 e 1998 e começou oficialmente a trabalhar na Expo 98. “De profissão, está a fazer hoje 30 anos que comecei a trabalhar. A Expo 98 foi o meu primeiro trabalho oficial.” Foi lá, no pavilhão das Ilhas Seychelles, que aprendeu a fazer um caril que ainda hoje aparece na carta do restaurante. A receita mudou, ganhou o toque pessoal, mas continua ligada a essa memória.

Depois da Expo vieram hotéis, restaurantes, eventos, passagens pelo Algarve, Setúbal e consultorias, além de 11 anos como formador de cozinha. “Cozinhar também é técnica, bons produtos e respeito por quem vamos servir”, resume.

Nos últimos quatro anos antes de abrir o restaurante no início do ano, em fevereiro, trabalhou como chefe privado de uma família. Viajou bastante, cozinhou em diferentes países e conheceu novos produtos e formas de trabalhar. Fala da Costa Rica, Miami, Formentera, norte da Suíça ou Évora como experiências que ajudaram a moldar a cozinha que hoje serve no Barreiro.

Apesar disso, começou a sentir falta da proximidade da família e da vida na margem sul. “Sou uma pessoa muito de família, muito de afeto”, conta. Quando percebeu que queria ficar mais perto da mulher, das filhas, dos pais e dos amigos, começou a pensar no próximo passo.

Ao contrário de muitos que vivem da cozinha, Luís nunca sonhou ter um espaço próprio. A ideia surgiu mais como resposta prática à pergunta que começou a fazer a si próprio: “O que faço agora?” Voltar aos horários da escola e às viagens constantes para Lisboa já não fazia sentido. “Quero ser feliz a fazer aquilo de que gosto. Sou feliz a cozinhar e a comunicar.”

O Barreiro apareceu como escolha natural. Teve hipóteses noutros concelhos, como Alcochete, Montijo, Moita e Seixal, mas queria abrir no sítio onde cresceu. Viveu no Lavradio desde os 12 anos, mora há cerca de duas décadas na Baixa da Banheira e sempre circulou por esta zona.

O espaço foi comprado a 1 de novembro de 2025. As obras, que deveriam durar dois meses, acabaram por demorar quatro. A rua estava em intervenção, havia pó, barulho e dias em que a porta tinha de ficar fechada. Ainda assim, o Cantinho do Figueiredo abriu a 28 de fevereiro e começou rapidamente a conquistar clientes. Hoje, os fins de semana já funcionam sobretudo por reserva.

A dimensão da sala foi uma escolha consciente. Luís queria um espaço pequeno para conseguir circular entre cozinha e mesas, explicar pratos, ouvir opiniões e adaptar detalhes quando faz sentido. O restaurante fecha à segunda-feira. À terça, quarta, quinta e domingo serve almoços. À sexta e sábado há almoço e jantar.

A carta vive entre pratos fixos e sugestões do dia. Nas entradas aparecem propostas como salada de polvo (6€), choco de coentrada (5€), pastéis de bacalhau (5€), moelas de fricassé (7,50€) ou burrata com beterraba e pesto (9€). Nos pratos principais há pataniscas de bacalhau com arroz de grelos (16€), caril de peixe e camarão com arroz basmati (17,50€), filete de peixe-galo crocante com arroz malandrinho de coentros (16,50€) ou peito de pato com arroz de enchidos (17€).

Muitos dos pratos revelam pedaços da sua história. O caril vem da Expo 98. O bacalhau com queijo de ovelha nasceu em 2001, quando trabalhava num hotel em Setúbal, e arroz de salpicão vem das raízes familiares do Norte. Já os pastéis seguem a receita da mãe e o pudim chega da receita da avó. Mas a escolha que mais comentários gera é precisamente aquilo que não existe na carta: batata frita.

No Cantinho do Figueiredo, o choco frito é servido com arroz de feijão. Para Luís, juntar fritos com fritos tira equilíbrio ao prato. O arroz traz caldo, textura e contraste. Já as batatas salteadas que acompanham alguns pratos vêm de outra memória, a da casa da mãe, onde as sobras de batata cozida eram reaproveitadas no dia seguinte com azeite, alho e ervas.

As sobremesas seguem a mesma lógica de conforto e memória. Há mousse de chocolate (4€), cheesecake de colher (4€), pudim da avó (4€) e carpaccio de abacaxi com especiarias e gelado de baunilha (4€).

A carta de vinhos também foi pensada para fugir aos rótulos mais óbvios. Luís quis criar uma seleção acessível, escolhida com ajuda de um amigo ligado ao vinho, sempre com preços variam entre os 15€ e os 30€.

A relação próxima com os clientes já começou a entrar na decoração do espaço. O restaurante tem um “rolhário”, uma parede onde ficam guardadas rolhas assinadas por quem passa pela casa. A ideia surgiu nos primeiros dias, quando uma cliente deixou uma dedicatória numa rolha de vinho.

Hoje, o Cantinho do Figueiredo funciona com Luís na cozinha, a mulher, Célia Figueiredo, na sala e organização da casa, além de dois colaboradores. É um negócio familiar, mas sem excesso de formalismos ou encenação.

Luís prefere que as pessoas regressem pela experiência, pela comida e pela conversa. Pode ser para uma refeição completa, várias entradas para partilhar ou apenas uma salada de polvo acompanhada por uma imperial.

Depois de 30 anos de profissão, foi precisamente isso que procurou criar no Barreiro: um lugar pequeno onde consegue cozinhar, receber e conversar sem pressa. “O Cantinho do Figueiredo é como se fosse a minha casa”, conclui.

Carrega na galeria para conhecer alguns pratos e detalhes do restaurante Cantinho do Figueiredo.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua Dr. Manuel Pacheco Nobre, 24B
  • HORÁRIO
  • Terça a quinta-feira das 12 às 15 horas
  • Sexta, Sábado das 12 às 15 horas e das 19 às 22 horas
  • Domingo das 12 às 15 horas
PREÇO MÉDIO
Entre 20€ e 30€

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