Durante semanas, no Barreiro, falou-se sempre do mesmo: será que alguém conseguiria voltar a fazer as bolas de manteiga da Moderna? A pergunta atravessou cafés, grupos de WhatsApp e caixas de comentários nas redes sociais. Quando a antiga pastelaria fechou, no final de 2025, muitos comentaram o acontecimento como se a cidade tivesse perdido um dos seus sabores mais reconhecíveis, e as bolas de manteiga tornaram-se memória coletiva.
No sábado, 7 de março, a resposta começou a ser testada numa pequena pastelaria da Rua Miguel Bombarda. A Nova Moderna abriu portas com a promessa de recuperar a receita que, durante décadas, saiu da antiga Pastelaria Moderna. E, literalmente, a cidade apareceu para ver se era verdade.
A prova formou-se logo à porta. A fila atravessava a pequena sala da pastelaria e seguia para a rua. Nos dois primeiros dias de funcionamento foram vendidas mais de 2.500 bolas de manteiga, segundo o pasteleiro Daniel Filipe Vargues, que lidera o novo projeto.
O número ajuda a explicar o cenário que a New in Barreiro encontrou na tarde de domingo, 8 de março. A espera para chegar ao balcão rondava os 20 minutos e a fila não parava de crescer.
A pastelaria é pequena, com apenas quatro mesas, mas quase ninguém parecia interessado em sentar-se. Os clientes entravam, olhavam rapidamente para a montra e saíam com caixas nas mãos. Muitas caixas.
A produção estava concentrada numa divisão atrás do balcão. Daniel e um ajudante tratavam da confeção das bolas de manteiga. À frente, quatro pessoas no atendimento tentavam manter o ritmo das vendas.
O regresso de um sabor que nunca saiu da cidade
Quando a NiB esteve no local, Daniel não conseguiu falar pessoalmente. Estava na produção, de mangas arregaçadas, a preparar mais fornadas. Mais tarde, por telefone, resumiu o que tinha acontecido desde a abertura. “Confesso que não esperava aparecer tanta gente”, disse. “Cheguei a casa agora e, nos dois últimos dias, trabalhámos sem parar. Posso dizer que esperávamos muito movimento, mas não tanto como o que aconteceu.”
A expectativa não era pequena, mas o movimento dos primeiros dias ultrapassou qualquer cálculo inicial. A Nova Moderna abriu portas prometendo recuperar a receita da antiga Pastelaria Moderna, fechada no final de 2025, e essa promessa foi suficiente para trazer muitos saudosistas de volta à Rua Miguel Bombarda.

Entre os clientes na fila estavam Eliana Policarpo, de 50 anos, e Hugo Santos, 48. Vieram da Baixa da Banheira e saíam sorridentes com as caixas de bolas de manteiga da pastelaria. “É uma memória afetiva”, explicou Eliana. “Ficámos tristes quando a Moderna fechou.”
A bola de manteiga da Moderna fazia parte de momentos familiares: jantares com amigos, visitas a casa de conhecidos fora do Barreiro, sobremesas improvisadas que acabavam por apresentar a cidade a quem nunca tinha ouvido falar da especialidade. “A maior parte das pessoas fora do Barreiro não conhece, por isso, levávamos sempre”, explicava Eliana.
Questionados sobre outras pastelarias que também vendem bolas de manteiga, responderam sem hesitar: “Não tem nada a ver”, assegurou Hugo, que aproveitou para comprar uma caixa para os pais. O casal ainda não tinha provado os doces da Nova Moderna, mas dizia que o aspeto é igual ao da antiga. “Sim, parecem iguais. São feitas pelo antigo pasteleiro, por isso acredito que o sabor também seja o mesmo”, comentou Eliana.
E tinham razão. A receita é, de facto, a da antiga pastelaria. O pasteleiro trabalhou na Moderna durante 24 anos, onde ficou até ao último dia de funcionamento. O projeto assume-se como continuidade da Moderna. Até o papel que embrulha algumas das bolas ainda carrega o logótipo e o endereço da antiga pastelaria, na Rua Dr. Manuel Pacheco Nobre.

A abertura da Nova Moderna também atraiu novos clientes, curiosos pela fama do doce barreirense. O casal Vanessa e Nuno Carmo e a filha Carolina Carmo vieram de Setúbal apenas para tentar comprar bolas de manteiga. Tinham feito a viagem no sábado, chegaram por volta das 15 horas, mas a montra já estava vazia.
“Ontem viemos de propósito”, contou Vanessa, “mas quando chegámos já estava esgotado.” A funcionária aconselhou a voltarem no dia seguinte e foi o que fizeram. Já conheciam a história das bolas de manteiga através de amigos do Barreiro. “Temos pessoas conhecidas daqui que diziam que havia umas bolas magníficas com creme”, explicou. “Disseram-nos que representavam o Barreiro há décadas.”
Enquanto esperavam na fila, já sabiam o que iam comprar. “Vamos levar umas seis ou oito, para amigos que são daqui e já não comem bolas de manteiga há algum tempo. Vamos fazer-lhes uma surpresa”, contou Vanessa.
Delmira Coelho, reformada que morava quase ao lado da antiga Moderna, também foi conhecer de perto a nova pastelaria. “Todas as pessoas frequentavam a Moderna. Vim morar no Barreiro em 1970, quando casei, e ia à pastelaria todos os dias. Era lá que comprávamos os jornais, revistas, cigarros e, claro, bebíamos café e comíamos bolas de manteiga. Todos fazíamos isso. Tenho uma sobrinha que saía de Cascais só para vir comer a bola de manteiga. Realmente é uma tradição do Barreiro”, contou.
A receita que continuou a mexer com o Barreiro
A Nova Moderna abriu precisamente com essa promessa: recuperar uma especialidade que, durante décadas, esteve associada à antiga casa da Rua Dr. Manuel Pacheco Nobre. A nova loja abriu na Rua Miguel Bombarda, 143, com o objetivo declarado de manter a receita original da bola de manteiga.
O encerramento da antiga Moderna, no final de 2025, foi recebido na cidade como o fim de uma referência. Durante semanas, as montras esvaziaram-se rapidamente. As pessoas compravam as últimas bolas de manteiga para guardar, congelar ou simplesmente provar mais uma vez.
A pastelaria tinha sido fundada em 1970 por João Maria Raimundo que, ao longo de décadas, construiu a reputação da casa. A bola de manteiga tornou-se o produto mais associado ao espaço e acabou por ganhar estatuto de símbolo doce do Barreiro.
Grande, macia, recheada com creme de manteiga fresco e polvilhada com açúcar em pó, a chamada “bola grande” atravessou gerações. Mesmo depois do fecho da Moderna, a receita não desapareceu da cidade. Várias casas continuaram a produzi-la e a apresentá-la como uma especialidade local.
A Mafraria é uma das referências mais citadas, com lojas na Rua Miguel Bombarda e em Santo André. A Transmontana mantém produção em três pontos da cidade, nas ruas Dom Francisco de Almeida, Dom João IV e 20 de Abril. O Tabuense continua a fabricar bolas diariamente desde 1988.
Outros exemplos aparecem espalhados pelo concelho. A Vida é Bela, no Grupo Desportivo Fabril e no Lavradio, e a Nortejo, entre Santo António da Charneca e a Cidade Sol, também mantêm a tradição viva. Até restaurantes como o Grelhador Mor passaram a incluir a bola de manteiga entre as sobremesas, embora não esteja disponível todos os dias.
Esse mapa doce explica por que razão a pergunta repetida após o fecho da Moderna — “onde vamos buscar as bolas?” — acabou por ter várias respostas. Mesmo assim, o regresso do nome Moderna, ainda que com a palavra “Nova”, mexeu com a cidade.
A Nova Moderna ainda está a começar. O espaço é pequeno, a produção é manual e o movimento dos primeiros dias surpreendeu até quem abriu a porta. Mas naquele domingo à tarde havia uma coisa clara para quem passava pela Rua Miguel Bombarda. A história da bola de manteiga no Barreiro tinha acabado de ganhar mais um capítulo.
Carrega na galeria para ver o doce que voltou a pôr o Barreiro em fila








