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Após 30 anos infeliz num escritório, Ana reinventou-se numa cozinha no Barreiro

Cansada de um emprego que a levou a um burnout, encontrou no Farabutto uma nova forma de viver e trabalhar.

Às dez da manhã, quando o Mercado 1.º de Maio ainda está a aquecer para o almoço, Ana Guerreiro já tem a cozinha do Farabutto em andamento. Liga as máquinas, vê o que ficou da véspera, confirma o que falta, prepara molhos, rala queijos, organiza a linha invisível que separa uma cozinha pronta de uma cozinha em atraso.

Ao meio dia começa o serviço. Às 14 horas sai. Volta às 18h30, afina o que se gastou ao almoço, recompõe o que falta e entra outra vez no compasso do jantar. Hoje, é ela quem segura o fogo no Farabutto, um dos restaurantes italianos mais genuínos da Grande Lisboa, instalado no Barreiro.

E basta olhar para a forma como se move ali dentro para perceber que não caiu naquela cozinha por acaso. Ana tem 59 anos e começou a cozinhar profissionalmente há apenas dois. 

Durante cerca de 30 anos, a sua vida foi outra. Trabalhou como secretária num gabinete de arquitetura. Era um emprego estável, bem pago, mas sem qualquer ligação ao que queria para si. “Honestamente, não gostava do que fazia, mas o salário era relativamente bom e  tinha contas para pagar. Era o que fazia para ganhar dinheiro.”  

A isso juntava-se um desgaste diário que, à força de repetição, quase passava por normal. Ana demorava cerca de quatro horas por dia em transportes, entre deslocações, cansaço e a sensação de estar sempre a correr para cumprir uma rotina que nunca lhe assentou bem. Durante anos, foi vivendo assim. Como tantos outros, foi aguentando, até deixar de conseguir.

Da pandemia ao burnout

Depois veio a pandemia e, com ela, a promessa de um alívio logístico. Trabalhar a partir de casa parecia, à partida, uma trégua. Para Ana, foi o contrário. O teletrabalho condensou tudo o que já a esmagava e tirou-lhe o pouco que ainda servia para respirar: o caminho, a rua, os colegas, a conversa, o simples facto de ver outras pessoas.

“Aguentei precisamente um ano e 15 dias em teletrabalho.” Conta os dias porque o corpo os contou primeiro. “Tive um burnout sério, não dormia, só chorava. Estava a ficar louca.” 

Foi a primeira baixa médica da sua vida, num total de quatro meses e meio a ansiolíticos, antidepressivos, exaustão. Ao mesmo tempo, o pai enfrentava problemas de saúde e precisava de apoio. E ela, fechada em casa, presa ao computador, a sentir que o trabalho já lhe entrava diretamente no sistema nervoso. “Tinha dias em que, cada vez que o telefone tocava, só me apetecia atirá-lo contra a parede.”

Quando a baixa estava a terminar, percebeu o que já não tinha regresso. Voltar àquele trabalho seria voltar ao sítio exacto onde adoecera. Fez um acordo amigável com o patrão e saiu. Ficou a receber o subsídio de desemprego durante dois anos e meio. E, pela primeira vez em muito tempo, começou a recuperar. Caminhava, respirava e dormia melhor. Sentia-se a regressar a si própria. 

A oportunidade de trabalhar como cozinheira apareceu já nessa fase, quando o pior tinha passado e o corpo deixara de viver em estado de defesa. Ana mora a cinco minutos do mercado. Um dia, uma amiga enviou-lhe um anúncio publicado por Roberto Garofalo, o italiano responsável pelo restaurante. O Farabutto estava à procurava de alguém. 

A primeira reação foi de quase riso. Se mandasse um currículo a dizer que era secretária há 30 anos, pensou, ele “ia rir-se na minha cara”. Por isso fez outra coisa. Foi ao restaurante pessoalmente e levava consigo uma experiência que não cabia no formato habitual de currículo.

Nunca tinha trabalhado numa cozinha profissional. Nunca fizera nada parecido, mas sempre gostara de cozinhar. Tinha uma página de Facebook e Instagram onde publicava “as minhas gracinhas”, por puro gosto, sem patrocínios, obrigações ou qualquer plano de futuro. Cozinhava para si, para os amigos e familiares. Fazia, fotografava e partilhava.

Nada daquilo parecia, à partida, material para entrar numa cozinha profissional de comida italiana. Contou isso a Roberto. Disse-lhe toda a verdade: que era secretária, que não tinha experiência em restauração, apenas cozinhava em casa e tinha uma página no Instagram, onde mostrava o que fazia.

Roberto ficou desconfiado. Pediu-lhe o endereço da página e disse-lhe para voltar dali a dois dias, para almoçar e conversar. Ela voltou e saiu de lá quase contratada. “Já não me deixou sair”, resume, entre o riso e a surpresa que ainda hoje lhe sobra na voz quando conta a história.

Roberto viu qualquer coisa antes de ela própria a nomear. Mais tarde diria que, quando conheceu Ana, percebeu logo a vontade e a disposição que ela tinha para aprender e desenvolver o seu potencial de cozinha. Acertou. 

O restaurante, instalado num pequeno quiosque do Mercado 1.º de Maio, tornou-se uma referência pela fidelidade a uma certa ideia de Itália: massa fresca feita no próprio dia, receitas enraizadas no sul italiano, respeito pelo produto, pouco interesse por atalhos ou efeitos fáceis.

É uma cozinha que exige método e mão. A base das receitas vem de Roberto. “A receita base é sempre dele”, explica Ana. “Mas está sempre aberto às nossas opiniões.” 

Os primeiros fins de semana como cozinheira foram duros. O fluxo de pessoas, os pedidos a cair, o movimento à volta, a necessidade de responder depressa sem perder a cabeça. “Os primeiros fins de semana foram assustadores.” A palavra não podia ser outra. “Era muito assustador ver as pessoas todas aqui à volta.” 

Ana diz que sempre gostou de cozinhar. Aprendeu com a mãe e era fã de programas de culinária. Gosta da comida portuguesa, especialmente peixe e frutos do mar, mas confessa que adora a gastronomia italiana, mexicana e asiática. “Estou a cozinhar o que gosto de comer. Isso facilita todo o processo e a minha inicial falta de técnica”, explica.

A ex-secretária nunca teve formação clássica de cozinha. Fez workshops por gosto, em Lisboa e no Algarve. Nada que se compare a uma escola ou a um percurso técnico formal. “Obviamente que não descuro a formação, é importante, mas acho que no dia a dia aprendemos alguma técnica e muito sobre a reação das pessoas e a resolver problemas que acontecem na hora.” E continua: “É muito gratificante ver a expressão das pessoas quando estão a começar a comer algo que fizemos e gostam.” 

Ana é Barreirense até à raiz. O avô que conheceu foi revisor da CP. Os pais trabalharam em escritórios em Lisboa. “A família veio do Alentejo, mas já sou da terceira geração que vive no Barreiro”.

E agora trabalha a cinco minutos de casa, num mercado onde conhece o chão, os ruídos, a comunidade. Achava que encontraria rivalidade entre restaurantes. Encontrou o contrário. “Temos todos muito boa relação, aprendemos uns com os outros.” Esse espírito de entreajuda, diz, é uma das coisas mais bonitas do lugar.

Quando olha para trás, Ana acha que isto podia ter acontecido mais cedo. Mas logo corrige a pressa: talvez, se a oportunidade tivesse aparecido antes,  tivesse tido medo. “Acho que aconteceu na altura certa. É isto que vou fazer o resto dos meus dias até me reformar.” 

Nem todos têm a sorte de encontrar o seu lugar. Menos ainda de o encontrar depois de uma vida inteira a trabalhar fora dele. Ana chegou tarde à cozinha, mas chegou inteira. Com o cansaço de quem já viveu demais para romantizar mudança, com a precisão de quem sabe o que a infelicidade prolongada faz, e com uma alegria nova, mais sólida, menos exibida. Durante 30 anos, o trabalho serviu para pagar a vida. Aos 57, finalmente, começou a servi-la de volta.

Carregue na galeria para conhecer alguns dos pratos preparados por Ana, que fazem parte do menu do Farabutto.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Mercado Municipal 1º de Maio | R. Eça de Queiroz, 2830-344 Barreiro
  • HORÁRIO
  • Terça a Quinta — 12 às 15h e 19 às 22h
  • Sexta e Sábado — 12 às 15h e 19 às 23h
PREÇO MÉDIO
Entre 20€ e 30€
TIPO DE COMIDA
Italiana

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