comida
ROCKWATTLET'S ROCK

comida

Amor, luto e comida caseira: a história real por detrás do sucesso da LuciSabores

A família responsável pelo restaurante acaba de abrir um segundo espaço onde continua a servir pratos portugueses prontos a levar.

A LuciSabores não é o resultado de uma estratégia de marca calculada friamente ou de um conceito de negócio desenhado ao milímetro. Pelo contrário, é o fruto genuíno de uma vida inteira de trabalho.

Essa essência torna-se evidente na mensagem de Cidália Nunes, de 50 anos, ao explicar a origem do nome da casa: “Luci é a junção de Lu, de Luís, com Ci, de Cidália.” Luís Nunes, o seu marido falecido há cerca de uma década, foi quem fundou com Cidália o talho que acabaria por abrir caminho a tudo o resto.

Hoje, décadas depois, Cidália e a enteada, Tânia Sousa, de 30 anos, comandam um negócio que esta semana inaugurou a segunda loja no Barreiro, transformando a comida portuguesa pronta a levar numa extensão natural desta história de família.

Do talho à cozinha: o início de um sonho guardado há anos

A trajetória da LuciSabores mergulha as raízes muito antes das travessas alinhadas atrás do balcão e dos cartazes diários que anunciam pratos de forno, arroz, bacalhau e sopas acabadas de fazer.

Tudo começou no talho da Rua 5 de Outubro, onde Cidália ainda trabalha desde que a casa abriu, há mais de três décadas. “Já lá estou há 31 anos”, partilhou na sua conversa com a New in Barreiro.

Foi naquele espaço que aprendeu o rigor da exigência do produto e a importância vital de conhecer os hábitos dos clientes quase de cor. Foi também ali que a ideia do pronto-a-comer começou a ganhar forma, surgindo como um plano antigo, guardado durante anos entre as rotinas do trabalho e as exigências da vida familiar.

“Era um sonho meu e do meu marido”, recorda. Luís Nunes foi o seu companheiro tanto na vida, como no negócio, e a sua morte, há cerca de dez anos, obrigou Cidália a fazer uma pausa forçada neste sonho. 

“Quando fiquei sozinha tive que parar um pouco este projeto.” Esse interregno foi um compasso de espera; o projeto ficou suspenso até que surgisse o momento ideal para avançar. Esse momento chegou em 2023, já no período pós-pandemia, com a abertura da primeira loja da LuciSabores.

Cidália e Tânia avançaram com uma base sólida, pois, antes de inaugurarem a primeira loja, já conheciam o mundo da restauração, mas do outro lado do balcão. “Tínhamos a experiência de fornecer restauração”, explicaram. Durante anos, souberam o que tinha mais saída, quais os cortes de carne mais solicitados e que tipo de produto os restaurantes procuravam.

Mas o conhecimento das duas advinha menos da cozinha profissional propriamente dita e mais do abastecimento, da observação atenta e de uma relação de grande proximidade com quem cozinhava para fora. 

Mesmo com este alicerce, a transição para um pronto-a-comer envolveu uma dose necessária de risco. O espaço da primeira loja surgiu como uma oportunidade e foi agarrado sem hesitações. “Nós abraçamos a aventura”, afirma Cidália.

A decisão foi tomada sem leviandade, mas também sem qualquer receio. O local já tinha tido uma utilização semelhante no passado, o que lhes pareceu o cenário certo para acolher o projeto.

O maior desafio veio depois, nos detalhes invisíveis que apenas se revelam quando as portas se abrem e os clientes começam a entrar: a produção, o controlo das quantidades, a organização, a gestão da equipa, os tempos de confeção, a saída dos pratos, a gestão de horários e as compras. “Tudo isso teve de ser afinado em andamento. Aprendémos com o dia a dia”, detalha Tânia.

“Já tivemos dias difíceis, mas nunca pensámos em desistir, nunca nos arrependemos”, garante Cidália com convicção. O percurso foi feito de muito esforço. “Mas foi muito trabalho para ajustar”, completa Tânia. Assim, a LuciSabores apresenta-se menos como um sucesso repentino e mais como uma construção paciente, alicerçada em erros evitados a tempo, aprendizagem quotidiana e uma enorme capacidade de adaptação.

Hoje, a estrutura está consolidada. No total, a operação emprega 15 pessoas, incluindo as duas sócias — o que significa que, sem elas, existem 13 funcionários.

A maioria destes colaboradores acompanha o projeto desde o seu início, o que contribui para uma estabilidade invulgar num setor onde a rotação de pessoal costuma ser elevada. “Com a ajuda dos cozinheiros e das ajudantes de cozinha, temos excelentes profissionais, tanto numa loja como de outra”, reconhece Cidália, destacando o papel da equipa neste crescimento.

O ambiente preserva o cunho de um negócio familiar, embora a organização já reflita a dimensão de quem transitou da fase de improviso para a de consolidação.

Pratos do dia que criam hábitos e fidelizam clientes

A essência da LuciSabores reside na comida portuguesa do dia a dia, aquela que soluciona almoços, jantares e refeições de fim de semana para quem prefere levar a comida já pronta. 

“Todos os dias temos seis pratos: três de carne e três de peixe”, explica. A base é constante, embora os menus variem diariamente entre as duas lojas. Durante esta última semana, por exemplo, o balcão apresentou iguarias como favas com entrecosto, lasanha de vitela, strogonoff, bacalhau à minhota, atum no forno e bacalhau à Gomes de Sá.

Noutras combinações, a ementa incluiu arroz de pato, pá de porco no forno, pota à lagareiro, bacalhau à Narciso, bacalhau com natas e espinafres, e filetes com arroz de tomate.

A nova loja, identificada nas redes sociais como LuciSabores 2, abriu na Avenida da Liberdade, nº 1, no Barreiro, mantendo um registo muito fiel ao original. Ali, logo na primeira semana, passaram pela montra pratos como mão de vaca com grão, panados de frango, dourada no forno, bacalhau com natas, arroz de polvo, filetes com açorda, salmão com molho de laranja e lombinhos com cogumelos.

Isto demonstra que ambas as casas trabalham receitas reconhecíveis e confortáveis, com um pé na tradição e outro na conveniência. A estratégia passa menos por surpreender através da excentricidade e mais por fidelizar através da consistência.

As sopas são também parte integrante deste ritual diário. A canja surge com frequência e, em muitos dias, junta-se à sopa do dia ou à sopa da pedra, que Cidália aponta como um dos clássicos mais requisitados em certas alturas da semana.

Nos meses de maior frio, o cozido marca a sua presença, enquanto no verão, o destaque vai para o choco frito. Esta sazonalidade é o reflexo natural de uma casa que cozinha para quem come fora todos os dias.

Clientela fixa e doses entre 12€ e 16€

A LuciSabores sustenta-se, sobretudo, na repetição, na fidelidade e na rotina. “Todos os dias”, respondeu Cidália quando questionada sobre a existência de uma clientela fixa. Referia-se aos trabalhadores, que passam à hora de almoço, aos reformados que regressam com regularidade e às pessoas que já integraram a casa na sua logística semanal. 

“Temos reformados que levam ao sábado comida para o fim de semana, porque fechamos ao domingo.” De facto, a LuciSabores faz agora parte da organização doméstica de muitos clientes.

Os preços praticados reforçam esta acessibilidade. As doses, que servem sempre duas (e por vezes três) pessoas, custam entre 12€ e 16€. A meia dose, entre 12€ e 13€,  e a opção individual nos 8€ e 9€. 

Existe ainda um menu estudante por 7€, que inclui prato individual e bebida. São valores estudados para permitir um consumo frequente, sem afastar quem procura uma solução prática para os dias de semana.

Há ainda uma vertente paralela do negócio, que ajuda a justificar este crescimento. A casa dedica-se também à confeção de comida para eventos, festas e encomendas de maior volume. “Há uma grande procura. Vendemos as travessas já prontas”, confirma Tânia.

Já forneceram refeições para escolas, festas de aniversário e para os bombeiros, especialmente aos fins de semana, quando a logística das equipas de serviço é mais complexa. Em épocas festivas, a procura aumenta: na ceia de Natal e na passagem de ano, o pronto-a-comer assume outro ritmo, com pedidos específicos e pratos tradicionais a sair em grande escala.

Este alargamento dos serviços explica por que razão a abertura da segunda loja surgiu como um passo natural e não como um capricho. Foi uma decisão maturada. “A segunda loja já estava a ser planeada há um ano”, revelou. O espaço cativou-as pela localização estratégica e pelo movimento da zona. 

Para a segunda loja, foram investidos quase 70.000€. “Ao contrário desta primeira loja, que já contava com uma estrutura, a segunda foi construída e equipada de raiz”, explicam.

A receção nestes primeiros dias superou as expectativas: “Temos tido uma aceitação muito boa, que nos surpreendeu.” O entusiasmo é visível, mas está ancorado na experiência. Se a primeira loja serviu de escola, a segunda já nasce num momento em que todos os processos estão afinados, desde a relação com fornecedores à compreensão do que o cliente procura.

Contudo, o coração do projeto permanece inalterado. Reside no trabalho diário, na presença constante das duas sócias e na ideia de uma comida feita com proximidade. Cidália e Tânia fazem questão de esclarecer que, embora os seus papeis na cozinha não seja o de cozinheiras, participam em todas as frentes da operação: tratam das compras, auxiliam na preparação, ajustam conceitos, acompanham de perto a produção e atendem.

Tânia fica mais na loja-mãe e Cidália entre o talho e a segunda loja. Ambas são peças ativas e essenciais da engrenagem. O grupo também conta com os dois filhos de Cidália e Luís: Filipe Nunes, 18 anos, e Solange Nunes, 26 anos. Os dois são sócios não-remunerados e não atuam diretamente no dia a dia da empresa.

Os envolvimento das duas sócias na rotina operacional faz da LuciSabores um caso de identidade do Barreiro. Há ali o espírito de bairro, a família, a resiliência e o ofício. Encontramos a história de Cidália, uma mulher que nasceu no Barreiro, cuja mãe teve uma banca no Mercado 1.º de Maio e que dedicou a sua vida profissional ao concelho.

Há a memória viva de um marido inscrita no nome da empresa. Uma enteada que se entregou ao projeto e ajudou a impulsionar o seu crescimento. E há, acima de tudo, um negócio que soube evoluir mantendo intacta a base que o sustenta.

Com a comida pronta, a casa conseguiu o que muitos outros negócios ambicionam sem sucesso: pegou numa história real e converteu-a num serviço útil, quotidiano e desejado pela comunidade. Fez tudo isto sem artifícios, poses ou fórmulas mágicas. Apenas com trabalho, memória e pratos que continuam a provar que a melhor receita para o sucesso é a autenticidade de quem cozinha para a sua comunidade.

Carregue na galeria para ver imagens do novo espaço e dos pratos que estão disponíveis diariamente.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Loja 1 | Avenida Escola dos Fuzileiros Navais nº 9 , Barreiro, Portugal, 2830-149
    Loja 2 | Avenida da Liberdade nº1, Verderena- Barreiro

  • HORÁRIO
  • Segunda-feira a sábado das 11h30 às 15 horas e das 18h30 às 21 horas
PREÇO MÉDIO
Entre 10€ e 20€
TIPO DE COMIDA
Portuguesa

ARTIGOS RECOMENDADOS